Estrela “morta” volta a esquentar e revela uma fase rara de sua evolução 

Estrela voltou a esquentar após o fenômeno dos anos 1990.(Imagem: Peter van Hoof, Observatório Real da Bélgica.)

A evolução de uma estrela normalmente acontece tão lentamente que os astrônomos precisam comparar diferentes astros em fases distintas para reconstruir sua história. O Objeto de Sakurai foge completamente desse padrão.

Essa estrela passou por uma transformação extraordinariamente rápida e agora oferece uma oportunidade rara de acompanhar, praticamente em tempo real, uma das etapas finais da evolução estelar.

Observações realizadas com o Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul, no Chile, mostram que o astro entrou em uma nova fase e apresenta sinais associados às chamadas estrelas Wolf-Rayet do tipo [WC], caracterizadas por ventos estelares intensos e uma composição rica em elementos como carbono e hélio.

Uma estrela que parecia ter chegado ao fim

O Objeto de Sakurai, também conhecido como V4334 Sgr, já havia praticamente encerrado sua vida como uma estrela semelhante ao Sol. Seu destino seria seguir o caminho típico de uma estrela de baixa ou média massa, deixando para trás um núcleo extremamente quente que acabaria se tornando uma anã branca.

Porém, ocorreu algo incomum.

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Um fenômeno chamado pulso térmico muito tardio provocou uma nova ignição de uma camada de hélio no interior do astro. Como consequência, a estrela se expandiu, esfriou e lançou material para o espaço, retornando temporariamente a uma fase anterior de sua evolução.

Esse comportamento deu origem à descrição de uma estrela “renascida”.

O fenômeno é tão raro que apenas duas estrelas foram observadas diretamente passando por esse tipo de transformação: o próprio Objeto de Sakurai e V605 Aquilae.

O astro está esquentando novamente

Brilho da estrela mudou rapidamente após seu raro renascimento.(Stefan Kimeswenger, Universidade de Innsbruck; Peter van Hoof, Observatório Real da Bélgica.)

Depois da erupção, enormes quantidades de gás e poeira esconderam a região central da estrela. Por isso, acompanhar sua evolução exigiu observações detalhadas e modelos capazes de interpretar sua atmosfera e seus ventos.

Agora, as análises espectroscópicas identificaram assinaturas de carbono e hélio compatíveis com um vento estelar do tipo [WC].

Os cálculos indicam uma temperatura superficial entre aproximadamente 27 mil e 36 mil kelvins, mostrando que o Objeto de Sakurai está novamente se aquecendo. O modelo preferido pelos pesquisadores aponta para cerca de 30.550 kelvins e um vento que alcança aproximadamente 500 km/s.

Além disso, a estrela ainda parece estar em uma fase relativamente inicial dessa nova etapa quando comparada à V605 Aquilae, que passou por um evento semelhante décadas antes.

Uma oportunidade rara para testar teorias

A importância da descoberta vai muito além de uma estrela incomum. A maioria das transformações estelares acontece em milhares, milhões ou até bilhões de anos, tornando impossível acompanhar determinadas etapas durante uma vida humana.

O Objeto de Sakurai é diferente porque sua transformação foi registrada desde a década de 1990. Agora, os pesquisadores podem comparar as observações ao longo de décadas com modelos de evolução estelar.

Um detalhe é especialmente importante: o reaquecimento observado está acontecendo de forma mais gradual do que algumas previsões anteriores indicavam. Isso permite testar quais modelos conseguem representar melhor o comportamento de uma estrela depois de um pulso térmico muito tardio.

A pesquisa científica

O estudo foi publicado em 16 de setembro de 2026 na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. O primeiro autor é W. Marcolino, do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Os astrônomos devem continuar acompanhando o astro nos próximos anos. Assim, o Objeto de Sakurai poderá revelar, em uma escala de tempo humana, como uma estrela moribunda retoma sua evolução até finalmente seguir seu caminho em direção ao estágio de anã branca.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes