Microplásticos invisíveis podem esconder uma poluição muito maior nas águas 

Microplásticos podem permanecer no ambiente por décadas ou séculos. (Imagem: Fala Ciência)

A poluição por microplásticos pode ser muito maior do que os métodos tradicionais conseguem enxergar. Um novo estudo realizado na Suíça identificou partículas extremamente pequenas em águas do Lago de Genebra e de rios da região, indicando que os níveis desse tipo de contaminante podem ter sido fortemente subestimados.

O problema está justamente no tamanho. Microplásticos são fragmentos de plástico com menos de 5 milímetros, mas uma parcela significativa deles é tão pequena que se torna difícil de detectar e classificar. Agora, pesquisadores desenvolveram uma técnica com inteligência artificial capaz de identificar partículas de apenas 5 micrômetros.

A parte mais difícil da poluição pode estar escondida

Grande parte das análises ambientais concentra-se em partículas maiores, que podem ser visualizadas e identificadas com relativa facilidade. Entretanto, conforme o tamanho diminui, a quantidade de partículas tende a aumentar rapidamente.

Isso significa que uma amostra aparentemente pouco contaminada pode esconder uma quantidade muito maior de partículas microscópicas.

Para investigar essa parcela menos acessível da poluição, a equipe desenvolveu um método capaz de analisar partículas entre 1 e 100 micrômetros. Para comparação, um micrômetro corresponde a um milionésimo de metro.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

A nova abordagem foi aplicada a amostras coletadas no sistema hídrico da região de Genebra. Os resultados chamaram atenção: as concentrações estimadas de microplásticos nessa faixa de tamanho podem ter sido mais de 650 vezes superiores às estimativas obtidas por abordagens convencionais.

Inteligência artificial separa plástico de material biológico

IA separa microplásticos de material biológico em amostras. (Imagem: Fala Ciência)

A dificuldade não está apenas em encontrar partículas pequenas. Em águas naturais, elas aparecem misturadas a material biológico e outros componentes, o que torna a identificação ainda mais complexa.

Por isso, os pesquisadores combinaram dois algoritmos de inteligência artificial.

O primeiro foi utilizado para ajudar a separar os possíveis microplásticos do material biológico presente nas amostras. Depois, um segundo sistema classificou as partículas de acordo com seus materiais.

A técnica conseguiu distinguir seis tipos de polímeros, permitindo uma caracterização mais detalhada dos fragmentos encontrados.

Além disso, o método pode ser aprimorado para identificar partículas ainda menores e, futuramente, alcançar a escala dos nanoplásticos.

Algumas amostras chegaram a níveis preocupantes

A análise também trouxe um sinal importante sobre a qualidade ambiental da água. Entre 38 amostras avaliadas pela EMPA, aproximadamente seis apresentaram concentrações acima dos limites ecotoxicológicos utilizados para estimar riscos ambientais.

Isso não significa que a água esteja necessariamente causando danos à população. A relação entre concentração ambiental e efeitos sobre seres humanos ainda precisa ser investigada com mais precisão.

Entretanto, o resultado mostra por que medir corretamente a quantidade de microplásticos no ambiente é fundamental.

O plástico pode carregar outras substâncias

O impacto dos microplásticos também pode ir além do próprio fragmento. Esses materiais podem conter aditivos químicos utilizados durante sua fabricação e interagir com outras substâncias presentes nos ambientes aquáticos.

A preocupação aumenta porque organismos de diferentes níveis da cadeia alimentar podem entrar em contato com essas partículas.

Assim, compreender os efeitos ambientais exige analisar não apenas o plástico isoladamente, mas também as substâncias associadas a ele e as interações com outros contaminantes.

Leia mais:

Um novo olhar sobre a poluição microscópica

A tecnologia utilizada no estudo pode ajudar a revelar uma parcela da contaminação que permanecia praticamente invisível aos métodos anteriores. No futuro, os pesquisadores pretendem acompanhar a evolução dos níveis de microplásticos na bacia hidrográfica de Genebra-Léman e ampliar a capacidade de identificação de diferentes polímeros.

O estudo foi publicado na revista científica npj Clean Water, com Christel S. Hassler como autora principal, em 2026, sob o título Revisiting microplastic pollution: a new method to detect small-sized microplastics in natural waters.

A descoberta mostra que conhecer a dimensão real da poluição por plástico depende cada vez mais de tecnologias capazes de enxergar aquilo que os métodos convencionais não conseguem detectar. E, nesse caso, as partículas mais numerosas podem estar justamente entre as menores.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes