Existe uma fase da história cósmica que permanece praticamente escondida. Ela aconteceu depois que o universo deixou de ser extremamente quente e luminoso, mas antes do nascimento das primeiras estrelas. Durante cerca de 150 milhões de anos, o cosmos era dominado por gás, principalmente hidrogênio neutro, sem as estruturas luminosas que hoje ajudam os astrônomos a mapear o espaço.
Agora, uma missão compacta pretende investigar justamente esse intervalo. O CosmoCube, um pequeno satélite desenvolvido no Reino Unido, deverá orbitar a Lua e aproveitar o lado oculto lunar como uma espécie de barreira natural contra sinais de rádio produzidos pela Terra.
A proposta chama atenção porque busca acessar uma época extremamente antiga do universo por meio de uma assinatura específica: a linha de 21 centímetros do hidrogênio.
Um sinal antigo escondido em frequências difíceis de observar
A linha de 21 centímetros é produzida por uma transição no átomo de hidrogênio neutro. Como o universo está em expansão, a radiação emitida nessa época chega até nós deslocada para frequências muito mais baixas.
É justamente aí que surge um problema. O CosmoCube deverá trabalhar entre 10 e 50 MHz, uma faixa na qual as observações feitas a partir da Terra enfrentam obstáculos importantes.
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Entrar no Canal do WhatsAppA ionosfera interfere na propagação dessas ondas de rádio, enquanto transmissões humanas, como sistemas de comunicação e outras fontes de radiofrequência, podem mascarar um sinal cósmico extremamente fraco.
Por isso, a Lua ganha um papel estratégico. Quando o satélite estiver protegido pelo lado oculto lunar, ficará temporariamente isolado da maior parte das transmissões provenientes da Terra.
Durante uma órbita de aproximadamente duas horas, a missão prevê cerca de 40 minutos de observação em condições de proteção lunar. Ao longo de dois anos, a expectativa apresentada no estudo é acumular aproximadamente 1.000 horas de dados.
Assinatura do hidrogênio pode revelar a infância do cosmos
O interesse científico vai muito além de encontrar uma radiação antiga. A linha de 21 centímetros pode funcionar como uma espécie de registro das condições do universo antes das primeiras estrelas.
Nesse período, ainda não existiam galáxias maduras como as conhecemos. O hidrogênio preenchia grande parte do espaço e começava a responder à influência gravitacional das estruturas que posteriormente dariam origem às primeiras estrelas e galáxias.
Por isso, medir esse sinal poderá ajudar os pesquisadores a investigar como a matéria se organizou no universo primordial e qual foi a participação da matéria escura nesse processo.
A matéria escura não emite luz, mas sua gravidade influencia a distribuição da matéria visível. Observar indiretamente seus efeitos durante uma fase tão antiga poderia oferecer informações importantes sobre a formação das primeiras estruturas cósmicas.
Tecnologia compacta para enfrentar um desafio gigantesco
Apesar de pequeno, o CosmoCube foi projetado para realizar medições extremamente delicadas. O satélite contará com um radiômetro miniaturizado e tecnologia de sistemas de radiofrequência integrada em chip, conhecida como RFSoC.
Outro desafio será separar o sinal procurado dos próprios ruídos produzidos pelo equipamento. Para isso, a missão prevê calibração contínua e técnicas estatísticas capazes de distinguir variações instrumentais e emissões de primeiro plano do possível sinal cosmológico.
Os dados também precisarão passar por modelos computacionais que considerem a resposta da antena e a enorme quantidade de radiação proveniente da própria Via Láctea.
O estudo que colocou o CosmoCube no centro da cosmologia lunar
A proposta foi apresentada no artigo “The CosmoCube lunar mission for probing the dark ages and cosmic dawn via 21-cm cosmology”, publicado na revista científica Nature Astronomy em 14 de agosto de 2026. O trabalho tem como primeiro autor Eloy de lera Acedo, da Universidade de Cambridge.
O estudo descreve uma missão de baixo custo relativo e tamanho reduzido, mas voltada para uma das regiões menos exploradas da história do universo. A expectativa é que o projeto possa avançar para uma missão espacial nos próximos anos.
Se funcionar como planejado, o CosmoCube poderá transformar o silêncio do lado oculto da Lua em uma ferramenta científica, permitindo procurar sinais de uma época em que o universo ainda não tinha estrelas para iluminar sua paisagem.
