Poucas cenas são tão características quanto um cão inclinando a cabeça enquanto escuta seu tutor. O movimento parece uma mistura de curiosidade e encantamento, mas pode representar algo muito mais interessante. Por trás daquele gesto existe um complexo sistema de audição, atenção, percepção e processamento de informações.
Durante muito tempo, a inclinação da cabeça foi interpretada principalmente como uma reação espontânea a sons diferentes. A ciência, porém, começou a investigar o comportamento de maneira mais detalhada e encontrou uma possível relação com a forma como os cães interpretam estímulos que consideram importantes.
Quando uma palavra chama a atenção do cérebro
Imagine que um cão esteja acostumado a ouvir determinadas palavras associadas a objetos, pessoas ou atividades. Quando uma dessas informações aparece, o cérebro precisa identificar o som, relacioná-lo a experiências anteriores e decidir como reagir. É nesse contexto que a inclinação da cabeça se torna especialmente interessante.
Em um estudo realizado com 40 cães, pesquisadores observaram o comportamento dos animais enquanto eles ouviam comandos para buscar brinquedos conhecidos. Os resultados mostraram que os cães que haviam aprendido os nomes dos objetos inclinavam a cabeça com muito mais frequência durante essas situações. Além disso, cada animal tendia a apresentar uma preferência consistente pelo mesmo lado da inclinação ao longo do tempo.
A pesquisa foi publicada na revista Animal Cognition, com Andrea Sommese como primeira autora, em 26 de outubro de 2021, data da publicação eletrônica do trabalho.
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Entrar no Canal do WhatsAppO resultado não significa que somente cães considerados inteligentes façam esse movimento. Na verdade, a descoberta sugere que a inclinação pode aparecer quando o animal está diante de um estímulo auditivo relevante, exigindo maior atenção e processamento.
O ouvido também entra nessa história
A audição canina possui características diferentes da humana. As orelhas móveis, especialmente em raças com pavilhões auriculares mais desenvolvidos, permitem alterar a maneira como os sons chegam ao ouvido.
Ao mover a cabeça e as orelhas, o cão pode modificar a relação espacial com determinada fonte sonora. Pequenas diferenças no momento e na intensidade com que o som alcança cada ouvido ajudam o sistema nervoso a estimar de onde vem o estímulo.
Por isso, quando um cachorro ouve um barulho inesperado, inclinar ou virar a cabeça pode fazer parte de uma estratégia de orientação. Entretanto, a explicação não precisa estar apenas nos ouvidos. A visão também pode participar.
O focinho pode mudar o que o cão enxerga
O formato da cabeça interfere no campo visual dos cães. Em animais com focinho longo, a própria estrutura do rosto pode limitar parcialmente determinadas regiões da visão frontal.
Ao inclinar a cabeça, o cão pode modificar o ângulo pelo qual observa uma pessoa ou um objeto. Isso pode ajudá-lo a obter informações visuais adicionais, principalmente quando está tentando interpretar expressões faciais, movimentos e linguagem corporal.
Assim, o famoso gesto pode envolver uma combinação de sentidos. O animal pode estar ouvindo, observando e processando informações simultaneamente.
Um pequeno gesto pode revelar lateralização cerebral
A preferência por um lado específico também chama atenção. O fato de alguns cães manterem uma direção predominante ao inclinar a cabeça levanta a possibilidade de participação da lateralização cerebral, fenômeno no qual diferentes lados do cérebro podem apresentar especializações funcionais.
Isso não significa que um lado seja simplesmente o lado “inteligente” e o outro o lado “emocional”. O cérebro funciona como uma rede integrada. Porém, determinadas tarefas podem apresentar diferenças de processamento entre os hemisférios.
A inclinação da cabeça pode, portanto, ser mais do que uma reação engraçada diante da voz humana. Em determinadas situações, ela pode representar um sinal visível de que o cão está prestando atenção e tentando atribuir significado ao que está ouvindo.
É importante observar, entretanto, a diferença entre uma inclinação ocasional durante uma interação e uma cabeça constantemente inclinada. Quando o comportamento aparece de forma persistente ou acompanhado por perda de equilíbrio, dificuldade para caminhar, movimentos anormais dos olhos ou outros sinais, é necessário procurar avaliação veterinária, pois a causa pode ser neurológica ou relacionada ao sistema vestibular.
