A primeira ave não decolava como as atuais e suas pernas podem ter sido essenciais para o voo

Archaeopteryx ancestral saltava e batia as asas para decolar, revela estudo. (Imagem: Fala Ciência)

Há cerca de 150 milhões de anos, uma criatura com penas caminhava entre dinossauros e carregava nas asas uma possibilidade que mudaria a história dos vertebrados. O Archaeopteryx é considerado uma das formas mais importantes para compreender a transição evolutiva entre dinossauros não avianos e aves.

Porém, apesar de possuir asas, ele não apresentava a anatomia necessária para decolar como uma ave moderna. Agora, uma nova análise indica que o segredo poderia estar justamente onde os pesquisadores menos esperavam: nas pernas.

Uma ave que ainda carregava traços de dinossauro

O Archaeopteryx combinava características de diferentes grupos. Tinha penas e asas, mas também apresentava uma longa cauda óssea, dentes e dedos separados com garras.

Além disso, seus ombros possuíam mobilidade limitada e o animal não tinha um esterno com quilha, estrutura relacionada à fixação dos grandes músculos usados no voo das aves atuais.

Estudo sugere que o Archaeopteryx usava dois ou três saltos para ganhar velocidade antes de voar. (Imagem: Science Graphic Design)

Por isso, uma decolagem baseada apenas em um salto poderoso e uma batida de asas seria pouco provável. Para entender outra possibilidade, os pesquisadores analisaram a biomecânica dos quadris, joelhos e tornozelos do animal e compararam os resultados com movimentos observados em aves modernas.

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A análise revelou um cenário diferente: as pernas poderiam produzir o impulso inicial, enquanto as asas entrariam em ação depois.

Dois ou três saltos poderiam ser suficientes

O estudo publicado em Developmental Biology, em 2026, por Erik A. Meilak, estimou que um Archaeopteryx de aproximadamente 400 gramas poderia alcançar uma velocidade de voo sustentável próxima de 7 metros por segundo usando uma sequência de saltos. O modelo apresentou duas possibilidades:

  • Três saltos bípedes, seguidos por batidas de asas.
  • Dois saltos intercalados por uma batida de asas, antes da continuidade do voo.

Essa estratégia permitiria distribuir o esforço necessário para deixar o solo, em vez de exigir uma única explosão muscular.

Curiosamente, algumas aves atuais, como corvos, pegas e gaivotas, ainda utilizam sequências de saltos em determinadas situações antes de ganhar velocidade suficiente para voar.

O primeiro voo pode ter começado aos poucos

A descoberta ajuda a explicar como o voo poderia ter surgido gradualmente. O Archaeopteryx não precisava possuir imediatamente a anatomia altamente especializada das aves modernas.

Pernas fortes, asas e penas poderiam desempenhar funções complementares durante uma fase inicial da evolução do voo. Assim, movimentos usados originalmente para correr e saltar poderiam ter sido progressivamente incorporados à capacidade de voar.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes