Tomar remédio de labirintite por conta própria pode piorar as tonturas a longo prazo 

Nem toda tontura tem origem no labirinto. (Imagem: Fala Ciência)

A tontura aparece de repente, o ambiente parece girar e surge aquela vontade imediata de procurar algum remédio para labirintite. O problema é que esse termo é usado popularmente para situações muito diferentes, e nem toda tontura tem origem no labirinto.

Além disso, alguns medicamentos chamados de supressores vestibulares podem reduzir temporariamente sintomas como vertigem e náusea. Entretanto, quando utilizados sem orientação ou por períodos inadequados, podem interferir no processo natural de compensação vestibular, mecanismo pelo qual o cérebro se adapta a alterações do sistema responsável pelo equilíbrio.

Por isso, controlar o sintoma não significa necessariamente tratar sua causa.

Alívio rápido não é sinônimo de recuperação

A recuperação da tontura é ativa. (Imagem: Fala Ciência)

O sistema vestibular, localizado no ouvido interno, trabalha continuamente com informações provenientes dos olhos, músculos e articulações para ajudar o cérebro a manter o equilíbrio.

Quando ocorre uma alteração vestibular, o cérebro precisa se adaptar às novas informações. Esse processo é chamado de compensação vestibular.

Medicamentos que diminuem a atividade vestibular podem ser úteis em determinadas situações, especialmente durante episódios intensos de vertigem. Porém, o uso prolongado sem indicação pode não ser a melhor estratégia para alguns quadros, justamente porque o sistema nervoso precisa participar ativamente da adaptação.

Além disso, diferentes causas de tontura exigem tratamentos diferentes. Vertigem posicional, doença de Ménière, neurite vestibular e enxaqueca vestibular, por exemplo, não devem ser tratadas como se fossem a mesma condição.

A adaptação cerebral é essencial para recuperar o equilíbrio 

Uma revisão publicada na revista Frontiers in Neurology em 4 de fevereiro de 2026, tendo O Nuri Özgirgin como primeiro autor, analisou os mecanismos envolvidos na compensação vestibular.

O trabalho descreve a compensação vestibular como um processo de neuroplasticidade no qual o sistema nervoso central desenvolve estratégias adaptativas para recuperar o equilíbrio e a orientação espacial após alterações vestibulares. A revisão também destaca que a recuperação varia entre indivíduos e que a abordagem terapêutica precisa considerar as características de cada paciente.

Esse conceito ajuda a entender por que simplesmente tentar eliminar qualquer sensação vestibular por tempo prolongado pode não ser adequado em determinadas situações. O tratamento precisa favorecer a recuperação, e não apenas mascarar o sintoma.

Nem toda tontura é “labirintite”

Um dos maiores problemas está justamente no diagnóstico popular. A palavra labirintite costuma ser utilizada para descrever praticamente qualquer episódio de tontura ou vertigem, mas existem diversas causas possíveis.

A vertigem posicional paroxística benigna, por exemplo, está relacionada ao deslocamento de pequenas partículas dentro do ouvido interno e pode responder a manobras específicas de reposicionamento, em vez de depender exclusivamente de medicamentos.

Já outras condições podem exigir investigação auditiva, neurológica, cardiovascular ou metabólica.

Por isso, tentar escolher sozinho um medicamento com base apenas no sintoma pode atrasar a identificação da causa.

Quando a tontura precisa de avaliação?

Uma crise isolada pode ter diferentes explicações. Porém, alguns sinais tornam especialmente importante procurar avaliação profissional:

  • Tontura recorrente ou persistente
  • Perda auditiva ou zumbido associado
  • Quedas ou dificuldade importante para caminhar
  • Dor de cabeça intensa ou diferente do habitual
  • Visão dupla, fraqueza ou dificuldade para falar
  • Sintomas que surgem de maneira abrupta e intensa

A tontura também pode estar relacionada a condições que não têm origem no ouvido interno.

Portanto, a ideia de que existe um único remédio para labirintite capaz de resolver qualquer episódio é enganosa. Medicamentos podem ter lugar no tratamento de determinados quadros, mas a escolha, a duração e a necessidade de uso dependem da causa da tontura.

O objetivo não deve ser apenas fazer o mundo parar de girar por algumas horas. É descobrir por que isso está acontecendo e escolher uma abordagem que ajude o organismo a recuperar o equilíbrio de maneira adequada.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn