A Via Láctea parece tranquila quando observada no céu noturno, mas sua história guarda episódios extremamente violentos. Um novo estudo sugere que nossa galáxia passou por uma transformação dramática há cerca de 10 a 11 bilhões de anos, quando colidiu com uma pequena galáxia conhecida como Gaia Sausage Enceladus, apelidada de Galáxia da Salsicha. Segundo a pesquisa, esse encontro pode ter sido intenso o suficiente para alterar completamente a orientação do disco galáctico, modificando a trajetória de bilhões de estrelas, incluindo possivelmente a do próprio Sistema Solar.
Os resultados foram apresentados por Kirill Batrakov durante a Reunião Nacional de Astronomia da Royal Astronomical Society, realizada em julho de 2026. A investigação baseou-se em simulações cosmológicas comparadas aos dados da missão Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA), oferecendo uma nova interpretação para a evolução da nossa galáxia.
O mistério da rotação lenta finalmente pode ter uma explicação
Os astrônomos buscavam compreender por que o halo estelar da Via Láctea apresenta uma rotação muito mais lenta do que o previsto pelos modelos tradicionais.
Para responder a essa questão, foram simuladas 25 galáxias semelhantes à Via Láctea, acompanhando sua evolução ao longo de bilhões de anos. Em seguida, os resultados foram comparados com as observações extremamente precisas obtidas pela missão Gaia, que vem mapeando posições e movimentos de bilhões de estrelas.
As simulações revelaram um padrão interessante. As galáxias que exibiam halos de baixa rotação passaram também por dois ocorridos interessantes:
- Uma colisão frontal com outra galáxia.
- Uma mudança superior a 90 graus na orientação do disco galáctico, fenômeno conhecido como disc flip.
Essa combinação reproduziu com grande fidelidade a estrutura atualmente observada na Via Láctea.
A Galáxia da Salsicha deixou marcas permanentes
A Gaia Sausage Enceladus era uma pequena galáxia absorvida pela Via Láctea durante sua juventude. Embora tivesse dimensões modestas em comparação com nossa galáxia, seu impacto foi suficiente para remodelar parte da estrutura galáctica.
Esse antigo processo de fusão deixou como herança bilhões de estrelas percorrendo órbitas extremamente alongadas, evidência que ainda pode ser observada atualmente graças aos dados da missão Gaia.
Além disso, o estudo sugere que essa colisão também pode estar relacionada ao comportamento do halo de matéria escura, componente invisível que representa a maior parte da massa da Via Láctea. Os modelos indicam que a rotação desse halo invisível acompanha de perto a dinâmica do halo formado pelas estrelas.
Até o Sistema Solar pode ter mudado de caminho
Uma das consequências mais fascinantes dessa hipótese envolve o próprio Sol. Se realmente ocorreu uma inversão da orientação do disco galáctico, grande parte das estrelas passou a seguir trajetórias diferentes das originais.
Isso significa que o Sistema Solar, hoje localizado em um dos braços espirais da Via Láctea, talvez tenha ocupado posições bastante distintas ao longo de sua história. Embora essa mudança tenha ocorrido muito antes da formação do Sol, o estudo mostra que nossa galáxia permaneceu em constante transformação durante bilhões de anos.
Um novo capítulo na história da Via Láctea
Os resultados oferecem uma visão mais completa sobre a formação da Via Láctea, mostrando que colisões entre galáxias desempenharam papel fundamental na construção de sua estrutura atual. Além disso, a combinação entre simulações cosmológicas e os dados obtidos pela missão Gaia permite reconstruir acontecimentos ocorridos há bilhões de anos com um nível de detalhe cada vez maior.
À medida que novos levantamentos astronômicos forem realizados, será possível testar essa hipótese com maior precisão e compreender como antigas fusões galácticas influenciaram não apenas a evolução da Via Láctea, mas também a distribuição das estrelas e da matéria escura em nossa vizinhança cósmica.
