Novo remédio para Alzheimer surpreende ao atacar dois problemas no cérebro 

Novo remédio atua contra danos cerebrais do Alzheimer. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Durante décadas, a busca por tratamentos contra o Alzheimer esteve concentrada principalmente em duas proteínas: a beta-amiloide e a tau. Porém, pesquisadores vêm descobrindo que a doença começa muito antes do surgimento dos grandes depósitos dessas substâncias no cérebro.

Agora, uma nova abordagem chama atenção da comunidade científica: um medicamento experimental capaz de atuar sobre danos no DNA dos neurônios e sobre a inflamação cerebral, dois processos considerados importantes no início da progressão da doença.

A molécula KCL-286, desenvolvida inicialmente para lesões na medula espinhal, apresentou resultados promissores em um modelo de camundongo com características semelhantes ao Alzheimer.

Além das proteínas clássicas, outros mecanismos entram no foco

O Alzheimer é uma doença complexa, envolvendo uma combinação de alterações celulares que, ao longo do tempo, prejudicam a comunicação entre os neurônios e favorecem a perda progressiva de funções cognitivas.

Embora os tratamentos mais recentes tenham buscado reduzir o acúmulo da proteína beta-amiloide, os benefícios clínicos ainda são considerados limitados. Por isso, cientistas passaram a investigar outros caminhos envolvidos na evolução da doença.

Entre esses mecanismos estão:

  • Danos ao DNA neuronal, que prejudicam o funcionamento das células cerebrais.
  • Inflamação crônica no cérebro, capaz de acelerar alterações degenerativas.
  • Alterações em vias moleculares relacionadas à sobrevivência dos neurônios.

A ideia é que medicamentos capazes de atingir diferentes processos ao mesmo tempo possam oferecer uma estratégia mais ampla contra a doença.

KCL-286 atua em uma via ligada à vitamina A

Medicamento experimental protege células do cérebro. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

O funcionamento do KCL-286 está relacionado à ativação do receptor beta do ácido retinoico (RARβ), uma proteína envolvida na via de processamento da vitamina A pelo organismo.

Estudos anteriores já haviam associado alterações nessa via molecular ao desenvolvimento de depósitos de beta-amiloide no cérebro. Além disso, a molécula demonstrou capacidade de estimular mecanismos de reparo de quebras de dupla fita no DNA, um tipo de dano considerado particularmente prejudicial para as células.

No novo trabalho, os pesquisadores observaram que o tratamento com KCL-286 reduziu sinais de dano genético nos neurônios e diminuiu marcadores relacionados à inflamação cerebral em animais com Alzheimer.

Pesquisa revelou resultados promissores

O estudo foi publicado na revista científica FEBS Open Bio, em 2026, tendo como primeira autora Natasha Hill e participação de pesquisadores do King’s College London, incluindo Jonathan P. T. Corcoran e Maria B. Gonçalves.

A pesquisa avaliou o efeito do KCL-286 em um modelo murino da doença de Alzheimer e identificou melhora em dois processos associados à progressão da doença: o reparo do DNA neuronal e a redução da resposta inflamatória no cérebro.

Apesar dos resultados positivos, é importante destacar que os achados ainda estão em fase pré-clínica. Estudos em animais são uma etapa inicial e não garantem que o mesmo efeito será observado em seres humanos.

O fato de a molécula já ter passado por uma Fase 1 de testes de segurança em humanos para outra condição, entretanto, pode facilitar futuras investigações clínicas.

Uma nova visão sobre o tratamento do Alzheimer

O avanço do KCL-286 representa uma mudança importante na forma como os pesquisadores enxergam o Alzheimer. Em vez de buscar apenas eliminar uma proteína específica, a estratégia aposta em corrigir alterações celulares que aparecem mais cedo na doença.

Ainda serão necessários novos estudos para avaliar segurança, eficácia e possíveis benefícios em pacientes. Porém, a descoberta abre uma nova possibilidade: tratar o Alzheimer considerando a doença como um conjunto de alterações biológicas, e não apenas como um problema causado pelo acúmulo de proteínas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn