Cientistas descobrem sinal no Sol que pode prever tempestades espaciais anos antes 

Novo método pode prever a intensidade do próximo ciclo solar com anos de antecedência. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

O Sol parece seguir um ritmo previsível, alternando períodos de maior e menor atividade aproximadamente a cada 11 anos. No entanto, esse comportamento esconde variações que desafiam os cientistas há décadas. Agora, uma nova pesquisa pode representar um importante avanço ao revelar que existe um momento específico em que a estrela praticamente encerra sua atividade extrema antes de iniciar um novo ciclo. Essa descoberta abre caminho para prever, com vários anos de antecedência, a intensidade do próximo período de atividade solar.

O estudo foi apresentado por Sandra Chapman durante a Reunião Nacional de Astronomia da Royal Astronomical Society, em julho de 2026. Embora os resultados ainda não tenham sido publicados em uma revista científica revisada por pares, eles oferecem uma nova perspectiva para compreender o comportamento magnético do Sol e melhorar as previsões de clima espacial.

O fim da atividade extrema acontece de forma inesperada

Tradicionalmente, imaginava-se que a atividade solar diminuía de maneira gradual até atingir o chamado mínimo solar. Entretanto, a nova análise indica que os eventos mais intensos cessam de forma relativamente abrupta em um ponto específico do ciclo.

Esse momento, chamado de ponto de desligamento, marca o fim das tempestades solares mais severas antes do início da próxima fase de crescimento da atividade da estrela.

A identificação desse marco pode transformar a forma como os astrônomos estimam o comportamento futuro do Sol, permitindo previsões muito mais antecipadas do que os métodos atualmente utilizados.

As manchas solares escondem pistas valiosas

As manchas solares são regiões escuras que aparecem na superfície do Sol devido à intensa atividade magnética. Elas costumam estar associadas à ocorrência de:

  • Erupções solares
  • Ejeções de massa coronal
  • Tempestades geomagnéticas
  • Emissão intensa de partículas energéticas

Esses fenômenos podem atingir a Terra e provocar impactos importantes em satélites, sistemas de navegação, telecomunicações, missões espaciais e até mesmo em redes de distribuição de energia elétrica.

O novo método mostra que a quantidade de manchas solares existente justamente no ponto de desligamento apresenta uma forte relação com a intensidade do ciclo seguinte. Assim, ao medir esse número, torna-se possível estimar quantas manchas solares o próximo ciclo poderá alcançar em seu máximo.

Uma previsão mais antecipada para o Ciclo Solar 26

Os modelos atuais normalmente conseguem gerar previsões confiáveis apenas quando o Sol já se aproxima do mínimo solar. A nova estratégia amplia significativamente essa janela, permitindo estimativas entre seis e sete anos antes do pico do próximo ciclo.

As projeções iniciais indicam que o Ciclo Solar 26 poderá apresentar intensidade moderada, semelhante ou até inferior ao atual Ciclo Solar 25. Ainda assim, os pesquisadores destacam que a previsão definitiva dependerá das observações que serão realizadas quando o Sol atingir o ponto de desligamento esperado nos próximos anos.

Além de melhorar as previsões operacionais, esse método pode contribuir para compreender melhor o funcionamento do dínamo solar, mecanismo responsável pela geração do campo magnético da estrela.

Entender o Sol significa proteger a tecnologia na Terra

A sociedade moderna depende cada vez mais de sistemas sensíveis ao clima espacial. Satélites de comunicação, sinais de GPS, infraestrutura elétrica e operações aeroespaciais podem sofrer interferências durante tempestades solares intensas.

Por isso, ampliar a capacidade de previsão representa um avanço estratégico tanto para a ciência quanto para setores tecnológicos e econômicos.

Caso o novo modelo continue demonstrando precisão nos próximos anos, ele poderá se tornar uma ferramenta importante para antecipar eventos solares extremos e reduzir seus impactos sobre a infraestrutura global. Além disso, a descoberta amplia nossa compreensão sobre os complexos mecanismos magnéticos que governam a estrela responsável por sustentar a vida na Terra.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes