Uma estratégia criada para atacar células do câncer está sendo testada em um cenário completamente diferente. Em um pequeno ensaio clínico, uma terapia com células CAR T conseguiu reduzir significativamente a atividade da artrite reumatoide grave e resistente a tratamentos, levando três dos seis participantes a uma remissão sustentada sem medicamentos durante o acompanhamento.
O resultado chama atenção porque a proposta não é simplesmente controlar a inflamação. A ideia é reprogramar parte do sistema imunológico, eliminando células que podem ajudar a manter a doença ativa.
Sistema de defesa passa a atacar as articulações
A artrite reumatoide é uma doença autoimune na qual o sistema imunológico passa a reconhecer estruturas do próprio organismo como ameaças. Nas articulações, esse processo provoca inflamação persistente, dor, inchaço e, com o tempo, pode causar danos estruturais.
Existem medicamentos capazes de controlar a doença, mas alguns pacientes apresentam uma forma refratária, na qual diferentes tratamentos não conseguem produzir uma resposta adequada.
Um dos alvos estudados são as células B, componentes do sistema imunológico envolvidos na produção de anticorpos e na organização das respostas imunes. Algumas dessas células podem permanecer no organismo e contribuir para a manutenção da autoimunidade.
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Entrar no Canal do WhatsAppÉ justamente aí que entra a terapia CAR T.
A mesma tecnologia do câncer ganhou outro alvo
Na terapia contra determinados cânceres, células T do próprio paciente são retiradas do sangue e modificadas em laboratório. Elas recebem um receptor artificial, chamado CAR, que permite reconhecer determinadas moléculas presentes nas células que devem ser eliminadas.
No estudo contra artrite reumatoide, o alvo escolhido foi o CD19, uma molécula encontrada em diferentes populações de células B.
Depois da modificação genética, as células CAR T são devolvidas ao paciente. O objetivo é provocar uma eliminação profunda das células B que participam da doença e, posteriormente, permitir que o sistema imunológico se reorganize.
Assim, a estratégia é diferente de simplesmente bloquear uma molécula inflamatória durante anos. A esperança é conseguir uma espécie de reinicialização da resposta imunológica.
Seis pacientes apresentaram uma resposta importante
O primeiro estágio do ensaio clínico COMPARE avaliou seis pessoas com artrite reumatoide soropositiva grave e resistente a tratamentos. Todos haviam recebido terapias anteriores sem controle adequado da doença.
Após uma única infusão de células CAR T, a atividade da artrite diminuiu em todos os participantes. No acompanhamento de até 52 semanas, três dos seis pacientes alcançaram remissão segundo os critérios utilizados pelos pesquisadores.
Além disso, os cientistas observaram uma redução progressiva de autoanticorpos associados à artrite reumatoide e uma eliminação de células B positivas para CD19 tanto no sangue quanto em tecidos.
Outro resultado interessante apareceu quando as células B começaram a retornar. Predominaram células B consideradas virgens, enquanto várias populações relacionadas à resposta autoimune anterior deixaram de ser detectadas.
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Resultado promissor ainda precisa passar por novos testes
Apesar do potencial, é fundamental colocar os números em perspectiva. Apenas seis pacientes participaram desta primeira fase, que teve como principal objetivo avaliar segurança e obter sinais iniciais de eficácia.
A terapia apresentou síndrome de liberação de citocinas de grau 1 ou 2 em todos os participantes, sem casos de síndrome de neurotoxicidade associada às células efetoras imunes. Também ocorreu um caso de elevação de enzimas hepáticas de grau 3, que foi resolvido.
O estudo, liderado por Fredrik N. Albach, foi publicado na Nature Medicine em 27 de agosto de 2026.
Agora, uma segunda fase do ensaio deverá incluir mais pacientes e comparar a estratégia com um tratamento já utilizado contra células B. Essa etapa será essencial para descobrir se a CAR T realmente consegue produzir remissões mais profundas e duradouras.
Por enquanto, portanto, não se trata de uma cura comprovada para a artrite reumatoide. O que existe é um sinal científico muito interessante de que modificar diretamente a memória imunológica da doença pode representar uma nova fronteira para pacientes que não respondem às terapias disponíveis.
