É um hábito comum na rotina de milhões de pessoas: colocar a marmita no micro-ondas sem retirar o alimento do recipiente plástico. Afinal, se a embalagem diz que é própria para micro-ondas, qual seria o problema? A resposta é mais complexa do que parece. Embora muitos recipientes sejam considerados seguros para esse uso, o calor pode aumentar a migração de microplásticos e de compostos químicos para os alimentos, especialmente quando o plástico está desgastado ou entra em contato com comidas muito quentes, gordurosas ou ácidas.
Além da preocupação com a exposição a essas partículas, pesquisadores investigam como algumas dessas substâncias podem interferir no funcionamento do organismo. Entre as hipóteses mais estudadas está a de que certos compostos atuem como disruptores endócrinos, alterando mecanismos relacionados ao apetite, ao armazenamento de gordura e ao metabolismo energético. Isso não significa que aquecer uma marmita no plástico fará alguém ganhar peso imediatamente, mas pode contribuir para um cenário de exposição contínua que merece atenção.
O calor facilita a liberação de partículas invisíveis para a comida
Quando o plástico é submetido a temperaturas elevadas, parte de sua estrutura pode sofrer degradação. Dependendo do tipo de material, isso favorece a liberação de microplásticos e de pequenas quantidades de substâncias químicas presentes na embalagem.
Esses materiais podem chegar ao organismo por meio da alimentação e, embora muitas dúvidas ainda existam sobre seus efeitos em humanos, diversos estudos apontam que a exposição frequente deve ser reduzida sempre que possível.
Alguns fatores aumentam essa liberação:
- temperaturas mais altas;
- tempo prolongado de aquecimento;
- alimentos ricos em gordura;
- recipientes antigos, riscados ou danificados.
Pesquisa recente mostra que a temperatura faz diferença
Uma pesquisa publicada na revista Scientific Reports, em 2 de junho de 2025, liderada por Tooraj Massahi, simulou diferentes condições de aquecimento em recipientes de polipropileno e poliestireno. Os pesquisadores verificaram que o aumento da temperatura favoreceu a liberação de compostos com potencial de interferir no sistema endócrino, indicando que o calor desempenha um papel importante na migração dessas substâncias para alimentos líquidos simulados. O estudo contribui para entender por que o aquecimento de recipientes plásticos continua sendo alvo de preocupação científica.
Embora a pesquisa não tenha avaliado diretamente ganho de peso em pessoas, seus resultados dialogam com um amplo conjunto de evidências que relaciona a exposição prolongada a disruptores endócrinos a alterações metabólicas investigadas pela ciência.
Pequenas mudanças podem reduzir a exposição
A boa notícia é que algumas atitudes simples ajudam a diminuir esse contato sem tornar a rotina mais complicada.
Entre elas estão:
- transferir a comida para recipientes de vidro ou cerâmica antes de aquecer;
- evitar reutilizar embalagens descartáveis para micro-ondas;
- substituir potes plásticos muito antigos ou riscados;
- preferir recipientes de vidro para armazenar refeições quentes.
Essas medidas não eliminam completamente a exposição aos microplásticos presentes no ambiente, mas podem reduzir uma fonte evitável de contato diário.
Vale a pena mudar esse hábito?
A ciência ainda busca responder muitas perguntas sobre os impactos dos microplásticos e dos compostos liberados pelos plásticos na saúde humana. Entretanto, o conhecimento atual indica que reduzir exposições desnecessárias é uma estratégia prudente, principalmente quando isso pode ser feito com mudanças simples na rotina.
Trocar um pote plástico por um recipiente de vidro antes de aquecer a marmita leva apenas alguns segundos. Ainda que essa atitude não determine, sozinha, o número na balança, ela pode contribuir para diminuir a exposição a substâncias que vêm sendo investigadas por seus possíveis efeitos sobre o metabolismo e o equilíbrio hormonal.
