A proteína mais temida no Alzheimer também ajuda a criar suas memórias 

Estudo revela nova função da proteína tau no cérebro. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

A proteína tau costuma ser lembrada por sua forte associação com a doença de Alzheimer. Afinal, alterações nessa proteína estão entre as principais características observadas no cérebro de pessoas com a doença. No entanto, uma nova pesquisa mostra que essa história é muito mais complexa.

Cientistas descobriram que, em condições normais, a tau exerce uma função essencial para a memória saudável, ajudando o cérebro a transformar experiências recentes em lembranças que permanecem por dias, semanas ou até anos. A descoberta amplia a compreensão sobre o funcionamento do cérebro e abre novas perspectivas para futuras pesquisas sobre demência.

É importante destacar que os experimentos foram realizados em camundongos, portanto os resultados ainda precisam ser confirmados em humanos.

Nem toda proteína tau é prejudicial ao cérebro

A proteína tau está naturalmente presente nos neurônios e participa da organização da estrutura dessas células. O problema surge quando ela sofre alterações anormais, formando agregados associados ao Alzheimer.

O novo estudo mostra que, antes de se tornar um problema, a tau desempenha uma função indispensável para o funcionamento normal do cérebro.

Durante a formação de uma lembrança, apenas um pequeno grupo de neurônios é escolhido para armazenar aquela informação. Essas células são conhecidas como células de engrama, consideradas o registro físico das memórias.

Os pesquisadores observaram que a proteína tau participa justamente dessa seleção, permitindo que as informações sejam organizadas de forma mais eficiente e estável.

Organização das memórias depende de um cérebro “mais silencioso”

Outro achado interessante envolve o chamado ruído neural, que representa a atividade elétrica de fundo presente no cérebro.

Segundo os pesquisadores, a proteína tau ajuda a reduzir essa atividade desnecessária durante o aprendizado. Como consequência, apenas os neurônios realmente importantes participam da formação da memória.

Esse mecanismo produz traços de memória mais precisos e duradouros, facilitando a recuperação das informações muito tempo depois da experiência original.

Além disso, os cientistas identificaram que uma fosforilação controlada da proteína tau, uma modificação química natural, faz parte desse processo saudável. Isso difere completamente da fosforilação excessiva observada na doença de Alzheimer.

Estudo revela uma nova função da proteína tau

Os resultados foram publicados na revista Nature Communications, em 2026, em um estudo liderado por Renée Kosonen, da Universidade Flinders, na Austrália.

Os pesquisadores demonstraram que a fosforilação da proteína tau no sítio T205 participa diretamente do recrutamento das células de engrama responsáveis pelas memórias de longa duração.

Quando a proteína tau estava ausente, os animais conseguiam aprender normalmente e recordar informações recentes. Entretanto, apresentavam dificuldade para consolidar essas lembranças ao longo do tempo.

A pesquisa também mostrou que versões anormais da proteína tau, semelhantes às encontradas no Alzheimer, prejudicavam tanto a formação quanto a recuperação das memórias, alterando a atividade dos circuitos cerebrais. Esses achados sugerem que os problemas de memória observados na demência podem estar relacionados não apenas à perda das lembranças, mas também à forma como elas são organizadas e acessadas pelo cérebro.

Uma nova perspectiva para compreender o Alzheimer

Durante muitos anos, a proteína tau foi vista quase exclusivamente como um marcador da doença de Alzheimer.

Agora, esse trabalho mostra que ela também possui um papel importante na memória saudável. Essa descoberta ajuda a explicar por que alterações na tau podem afetar profundamente a capacidade de recordar acontecimentos.

Embora ainda sejam necessários estudos em seres humanos, os resultados oferecem uma nova forma de compreender os mecanismos envolvidos na memória e podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias futuras voltadas à prevenção e ao tratamento das doenças neurodegenerativas.

Entender como o cérebro organiza suas lembranças é um dos grandes desafios da neurociência, e a proteína tau acaba de ganhar um papel muito mais importante nessa história.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn