A Lua está prestes a receber um número cada vez maior de missões espaciais nas próximas décadas. Entretanto, um novo estudo sugere que essa intensa exploração pode ter um efeito inesperado: apagar pistas químicas extremamente antigas que talvez ajudem a explicar como a vida surgiu na Terra.
A pesquisa indica que os gases liberados pelos motores das espaçonaves podem se espalhar rapidamente por praticamente toda a superfície lunar. Como consequência, moléculas produzidas durante as aterrissagens podem contaminar depósitos de gelo preservados há bilhões de anos, justamente onde cientistas esperam encontrar vestígios da química primitiva do Sistema Solar.
Os resultados foram publicados no Journal of Geophysical Research: Planets, em estudo liderado por Francisca S. Paiva, com Silvio Sinibaldi, em 2025.
A Lua pode guardar um registro da origem da vida
Ao contrário da Terra, cuja superfície sofreu profundas transformações ao longo de bilhões de anos, a Lua preserva regiões praticamente intactas desde os primórdios do Sistema Solar.
Entre os locais mais valiosos estão as chamadas regiões permanentemente sombreadas, crateras localizadas próximas aos polos lunares que nunca recebem luz solar. Como permanecem extremamente frias, essas áreas funcionam como verdadeiros congeladores naturais. Os pesquisadores acreditam que esses depósitos possam armazenar:
- Moléculas orgânicas primitivas
- Material trazido por cometas e asteroides
- Compostos químicos anteriores ao surgimento da vida
Esses registros podem oferecer informações fundamentais sobre os processos químicos que deram origem às primeiras moléculas biológicas do nosso planeta.
Como os gases das espaçonaves se espalham pela Lua
Para investigar esse risco, os pesquisadores desenvolveram um sofisticado modelo computacional baseado em uma futura missão da Agência Espacial Europeia.
O objetivo foi acompanhar o comportamento do metano, um dos principais compostos produzidos durante a combustão dos propelentes utilizados nas alunissagens. Os resultados chamaram atenção.
As simulações mostraram que as moléculas conseguem percorrer enormes distâncias em pouquíssimo tempo. Em menos de dois dias lunares, parte do metano já alcançaria o Polo Norte, mesmo após um pouso realizado próximo ao Polo Sul.
Depois de aproximadamente sete dias lunares, mais da metade desse material já estaria aprisionada nas regiões geladas dos polos.
Por que isso acontece tão rapidamente?
A principal explicação está na própria natureza da Lua. Como praticamente não existe atmosfera, as moléculas não encontram resistência para se deslocar. Em vez de desacelerarem, elas realizam sucessivos “saltos” sobre a superfície lunar, impulsionadas pela gravidade e pela radiação solar.
Esse comportamento faz com que os compostos provenientes dos motores possam atingir áreas muito distantes do ponto original de pouso.
Segundo o estudo, isso significa que nenhum local de aterrissagem está completamente isolado dos depósitos científicos mais importantes.
Protegendo um dos maiores arquivos do Sistema Solar
Os pesquisadores destacam que a descoberta não significa que futuras missões devam ser interrompidas. Pelo contrário, ela mostra a necessidade de desenvolver estratégias que conciliem exploração espacial e preservação científica. Entre as possibilidades estudadas estão:
- Escolha mais cuidadosa dos locais de pouso
- Monitoramento da contaminação durante as missões
- Desenvolvimento de motores com menor emissão de compostos orgânicos
- Instrumentos capazes de distinguir moléculas naturais das produzidas pelas espaçonaves
Essas medidas podem garantir que futuras expedições continuem investigando um dos maiores mistérios da ciência: como os ingredientes químicos da vida surgiram e evoluíram até formar os primeiros organismos na Terra.
À medida que novas missões internacionais avançam rumo à Lua, compreender e limitar essa contaminação poderá ser tão importante quanto explorar sua superfície. Afinal, preservar esses registros naturais significa proteger uma oportunidade única de investigar capítulos da história do Sistema Solar que já desapareceram completamente do nosso planeta.
