Nova teoria atualiza as leis de Hawking e pode mudar nossa visão dos buracos negros

Nova teoria amplia as leis de Hawking para explicar buracos negros em constante transformação. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Os buracos negros estão entre os fenômenos mais fascinantes e misteriosos do Universo. Durante mais de cinco décadas, as leis propostas por Stephen Hawking serviram como referência para explicar como esses gigantes cósmicos se comportam. Agora, uma nova pesquisa sugere que esse modelo pode ser ampliado para descrever um cenário muito mais realista: buracos negros que crescem, colidem, evaporam e mudam continuamente.

A proposta representa um avanço importante porque aproxima ainda mais duas das maiores teorias da Física moderna, a relatividade geral e a mecânica quântica. Além disso, pode ajudar os cientistas a interpretar fenômenos extremos observados por detectores de ondas gravitacionais, como o LIGO, ampliando nossa compreensão sobre a evolução desses objetos cósmicos.

Por que as leis de Hawking precisavam ser atualizadas?

Na década de 1970, Stephen Hawking demonstrou que os buracos negros também obedecem a princípios da termodinâmica, ramo da Física que descreve como energia, calor e entropia se comportam. Essas ideias estabeleceram relações importantes entre propriedades dos buracos negros, como:

  • Massa
  • Rotação
  • Temperatura
  • Entropia
  • Área do horizonte de eventos

Entretanto, havia uma limitação importante. O modelo considerava apenas buracos negros em equilíbrio, ou seja, situações idealizadas em que suas propriedades permanecem constantes ao longo do tempo.

Na prática, porém, esses objetos estão longe de serem estáticos. Eles podem acumular matéria, colidir entre si e perder energia lentamente por meio da radiação de Hawking.

Uma nova forma de medir a entropia

Para superar essa limitação, os pesquisadores propuseram uma nova maneira de calcular a entropia, grandeza física relacionada ao número de estados possíveis de um sistema e cuja tendência natural é aumentar com o tempo.

Em vez de utilizar apenas o tradicional horizonte de eventos, a equipe passou a adotar o chamado horizonte dinâmico, conceito que descreve o buraco negro conforme suas propriedades atuais, sem depender do que acontecerá futuramente.

Essa mudança torna possível aplicar as leis da termodinâmica a buracos negros em constante evolução, aproximando a teoria das condições reais observadas no Universo.

O que muda para a compreensão do Universo?

Segundo os pesquisadores, a nova estrutura pode melhorar significativamente a descrição de fenômenos extremamente energéticos, como:

  • Formação de buracos negros
  • Fusão entre buracos negros
  • Evaporação provocada pela radiação de Hawking
  • Emissão de ondas gravitacionais

Esses processos vêm sendo registrados com precisão crescente por observatórios modernos, tornando essencial o desenvolvimento de modelos teóricos capazes de acompanhar essa evolução.

A proposta também pode contribuir para um dos maiores desafios da Física atual: integrar de maneira consistente a relatividade geral de Albert Einstein com os princípios da mecânica quântica.

Um novo passo rumo à Física do futuro

Embora a teoria ainda precise ser testada em diferentes cenários e confrontada com novas observações astronômicas, ela oferece uma estrutura matemática mais adequada para estudar buracos negros reais.

Ao considerar objetos que mudam continuamente, o modelo amplia significativamente o alcance das leis formuladas por Hawking e cria novas possibilidades para interpretar os dados obtidos pelos detectores de ondas gravitacionais e futuras missões espaciais.

O estudo foi publicado em 2026 na revista científica Physical Review Letters, em pesquisa liderada por Abhay Ashtekar, com participação de Daniel E. Paraizo e Jonathan Shu. Os resultados sugerem que uma das teorias mais importantes da Física moderna pode estar entrando em uma nova fase, aproximando os cientistas da compreensão completa dos objetos mais extremos conhecidos no Universo.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes