Uma estrela pode estar consumindo seus próprios planetas, revela novo estudo 

Estrela pode ter engolido um planeta e já ameaça consumir outro objeto gigantesco. (Imagem: Fala Ciência via ChatGPT)

O Universo está repleto de fenômenos extremos, mas alguns conseguem surpreender até mesmo os astrônomos mais experientes. Um deles acaba de ser identificado em um sistema localizado a cerca de 1.300 anos-luz da Terra, onde uma estrela pode ter literalmente engolido um de seus próprios planetas. Mais intrigante ainda, tudo indica que outro objeto gigante já esteja seguindo o mesmo destino.

A protagonista dessa história é a estrela TOI-5882, que apresenta características químicas incomuns e abriga uma anã marrom extremamente próxima. Juntas, essas evidências oferecem uma rara oportunidade de compreender como sistemas planetários evoluem e, em alguns casos, acabam sendo destruídos.

Uma assinatura química revelou um possível planeta perdido

A principal pista surgiu durante a análise da luz emitida por TOI-5882. Os pesquisadores identificaram uma quantidade anormalmente elevada de lítio, elemento químico que normalmente é muito mais abundante em planetas do que no interior das estrelas.

Esse excesso sugere que a estrela pode ter absorvido um planeta relativamente recentemente em termos astronômicos. Embora o evento possa ter ocorrido há centenas de milhões ou até bilhões de anos, os vestígios químicos permanecem preservados na atmosfera estelar, funcionando como um verdadeiro registro de sua história.

Esse tipo de descoberta é particularmente importante porque permite investigar eventos que acontecem rapidamente, mas deixam marcas detectáveis por longos períodos.

Como uma estrela pode engolir um planeta?

Quando estrelas semelhantes ao Sol envelhecem, elas entram na fase de gigante vermelha, expandindo enormemente seu tamanho. Nesse processo, os planetas mais próximos podem acabar sendo incorporados pela estrela.

No entanto, TOI-5882 ainda não atingiu essa etapa da evolução estelar. Isso levou os pesquisadores a considerar outro mecanismo para explicar o desaparecimento do planeta.

A hipótese mais provável envolve a ação gravitacional de uma enorme anã marrom, denominada TOI-5882-b. Esse objeto possui aproximadamente 22 vezes a massa de Júpiter e completa uma órbita ao redor da estrela em apenas uma semana.

Os cientistas acreditam que sua intensa gravidade pode ter alterado a órbita de um planeta vizinho, fazendo com que ele fosse lançado diretamente contra a estrela.

A próxima vítima pode já estar definida

O estudo indica que a própria TOI-5882-b poderá ser engolida futuramente.

Modelos mais recentes mostram que a interação gravitacional entre a estrela e a anã marrom provoca uma perda gradual de energia orbital. Como consequência, o objeto se aproxima lentamente da estrela em um movimento conhecido como espiral orbital.

Novas simulações sugerem que esse processo pode ocorrer entre duas e seis vezes mais rapidamente do que estimativas anteriores indicavam, reduzindo significativamente o tempo necessário para o possível engolfamento.

O que essa descoberta ensina sobre o Universo?

Embora esse cenário pareça extraordinário, ele faz parte da evolução natural de muitos sistemas planetários. No futuro distante, o próprio Sistema Solar deverá passar por um processo semelhante, quando o Sol entrar na fase de gigante vermelha.

Nessa etapa, Mercúrio, Vênus e possivelmente até a Terra poderão ser engolidos pela expansão da estrela. Além disso, estudar sistemas como TOI-5882 ajuda os astrônomos a compreender:

  • Como planetas podem desaparecer ao longo da evolução estelar.
  • De que forma objetos gigantes alteram a estabilidade das órbitas.
  • Como assinaturas químicas revelam eventos ocorridos há bilhões de anos.
  • A dinâmica entre estrelas, planetas e anãs marrons.

Os resultados foram apresentados em dois estudos científicos publicados em 2026. O primeiro, liderado por Brooke Kotten, foi publicado na revista The Astrophysical Journal e identificou evidências químicas compatíveis com a absorção de um planeta pela estrela TOI-5882.

O segundo, liderado por Ritvik Narayan e publicado na The Astrophysical Journal Letters, mostrou que a anã marrom TOI-5882-b pode ser engolida muito antes do previsto, ampliando o entendimento sobre a evolução e o destino de sistemas planetários semelhantes ao nosso.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes