Gases à noite? A forma como você mastiga pode explicar o problema 

Comer rápido favorece gases e estufamento abdominal. (Foto: Getty Images via Canva)
Comer rápido favorece gases e estufamento abdominal. (Foto: Getty Images via Canva)

Sentir a barriga estufada ou apresentar gases excessivos após o jantar é uma queixa bastante comum. Embora muitos culpem apenas determinados alimentos, um fator frequentemente ignorado pode fazer toda a diferença: a maneira como mastigamos. A mastigação representa o primeiro passo da digestão e exerce papel essencial na preparação dos alimentos para o trabalho do estômago e do intestino.

Quando esse processo acontece de forma rápida ou incompleta, a digestão pode se tornar menos eficiente, favorecendo o acúmulo de gases e a sensação de desconforto, especialmente no período da noite.

A digestão começa muito antes do alimento chegar ao estômago

Cada mordida bem mastigada reduz o alimento em partículas menores e aumenta sua superfície de contato com as enzimas digestivas presentes na saliva. Além disso, forma um bolo alimentar mais homogêneo, facilitando o trabalho do sistema digestório.

Por outro lado, engolir pedaços grandes exige maior esforço do estômago para quebrar os alimentos. Como consequência, parte desse material pode chegar ao intestino em condições menos favoráveis para a digestão, permitindo que bactérias intestinais fermentem nutrientes não totalmente processados, produzindo gases.

Outro fator importante é que quem come muito depressa costuma engolir mais ar durante a refeição, fenômeno conhecido como aerofagia, que também contribui para o aumento do desconforto abdominal.

O jantar merece atenção especial

À noite, muitas pessoas realizam refeições volumosas após um longo período de trabalho. Além disso, é comum deitar poucas horas depois de comer.

Essa combinação pode favorecer sintomas como:

  • Estufamento abdominal;
  • Flatulência;
  • Sensação de digestão lenta;
  • Arrotos frequentes;
  • Desconforto intestinal.

Embora esses sintomas nem sempre indiquem alguma doença, eles podem sinalizar que os hábitos alimentares precisam de ajustes.

A ciência mostra que mastigar melhor modifica a digestão

Um estudo publicado na revista Food Chemistry, em 10 de janeiro de 2025, conduzido por Boya Lv, investigou como diferentes níveis de mastigação influenciam o processo digestivo. Utilizando um simulador avançado que reproduz a mastigação humana, os pesquisadores observaram que alimentos submetidos a um maior número de mastigações apresentavam partículas menores, permitindo digestão mais eficiente e maior hidrólise inicial do amido.

Os resultados indicam que a qualidade da mastigação interfere diretamente na forma como os alimentos são processados ao longo do trato gastrointestinal, mostrando que esse simples hábito pode influenciar toda a digestão.

Pequenas mudanças podem diminuir os gases

Felizmente, algumas atitudes simples costumam melhorar bastante o conforto digestivo.

Entre elas estão:

  • Mastigar lentamente, sem pressa;
  • Evitar conversar enquanto mastiga, reduzindo a ingestão de ar;
  • Fazer refeições em ambiente tranquilo;
  • Não exagerar no volume do jantar;
  • Esperar algum tempo antes de deitar após a refeição.

Essas medidas ajudam o organismo a realizar a digestão de maneira mais eficiente e podem reduzir episódios frequentes de gases.

Nem sempre o alimento é o principal responsável

Muitas pessoas eliminam diversos alimentos da dieta acreditando que eles sejam a única causa da flatulência. Entretanto, a velocidade da alimentação e a qualidade da mastigação podem ter papel igualmente importante.

Observar esses hábitos costuma trazer benefícios não apenas para a digestão, mas também para a absorção de nutrientes e para o funcionamento intestinal. Pequenas mudanças no comportamento durante as refeições podem proporcionar grande diferença no bem-estar diário.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn

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