Pesquisa revela genes que causam câncer tanto em gatos quanto em humanos

Genes do câncer felino se parecem com humanos. (Foto: Pixelshot via Canva)

Os gatos vivem dentro das nossas casas, respiram o mesmo ar e compartilham muitos dos nossos hábitos ambientais. E agora, a ciência mostra que eles também podem compartilhar algo ainda mais profundo: alterações genéticas associadas ao câncer. Um estudo de grande escala revelou que tumores felinos apresentam mutações semelhantes às observadas em humanos, especialmente no câncer de mama.

A pesquisa, publicada na revista Science, no estudo intitulado “The oncogenome of the domestic cat”, conduzido por BA Francis e colaboradores em 19 de fevereiro de 2026 (DOI: 10.1126/science.ady6651), representa um dos maiores avanços já realizados na oncologia felina.

Um mapa genético inédito do câncer felino

Os pesquisadores analisaram amostras tumorais e tecidos saudáveis de quase 500 gatos de estimação, abrangendo 13 tipos diferentes de câncer. O foco foi investigar aproximadamente 1.000 genes já associados ao câncer humano.

Os resultados mostraram que, em vários tumores felinos, as alterações genéticas que impulsionam a doença são comparáveis às observadas em humanos e cães. Entre os achados mais relevantes estão:

  • Identificação de genes condutores envolvidos no desenvolvimento tumoral
  • Forte semelhança entre carcinoma mamário felino e câncer de mama humano
  • Alterações genéticas compartilhadas em tumores de sangue, ossos, pulmões e sistema nervoso

Esses dados criam uma base sólida para futuras pesquisas translacionais.

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Genes em comum que preocupam

No caso do carcinoma mamário felino, considerado comum e agressivo, foram identificados sete genes principais associados ao crescimento tumoral.

O gene FBXW7 foi o mais frequentemente alterado, presente em mais da metade dos tumores analisados. Em humanos, mutações nesse mesmo gene estão relacionadas a pior prognóstico no câncer de mama, sugerindo um paralelo biológico relevante.

Além disso, o gene PIK3CA apareceu em 47% dos tumores mamários felinos. Essa mutação também é comum no câncer de mama humano, onde já existem inibidores de PI3K aprovados como estratégia terapêutica.

Outro dado promissor envolve a resposta a medicamentos. Certos quimioterápicos demonstraram maior eficácia em tumores felinos com mutações específicas, indicando que a medicina de precisão veterinária pode estar mais próxima do que se imaginava.

Uma Só Medicina: integração entre espécies

O estudo reforça o conceito de Uma Só Medicina, abordagem que integra a saúde humana e veterinária. Como os gatos compartilham o ambiente com seus tutores, eles também estão expostos a fatores ambientais semelhantes, como poluentes e hábitos alimentares.

Portanto, investigar o câncer em felinos pode:

  • Ajudar a compreender fatores ambientais comuns
  • Antecipar mecanismos moleculares relevantes
  • Servir como modelo para testes terapêuticos

Essa troca bidirecional de conhecimento pode acelerar descobertas clínicas.

O futuro da oncologia felina e humana

Até recentemente, a genética do câncer em gatos era pouco explorada. Com a criação desse amplo banco de dados genômico, abre-se caminho para:

  • Desenvolvimento de terapias direcionadas
  • Ensaios clínicos comparativos entre espécies
  • Diagnósticos mais precisos na medicina veterinária

Além disso, a similaridade molecular observada amplia as possibilidades de novos tratamentos que beneficiem tanto animais quanto humanos.

Em síntese, compreender o oncogenoma do gato doméstico pode representar um avanço estratégico na luta contra o câncer de mama e outros tumores. O que começa no consultório veterinário pode, no futuro, impactar diretamente a prática da oncologia humana.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn