Vitiligo: tecnologia da USP recupera pigmentação da pele em animais em 15 dias 

Nova estratégia busca recuperar a pigmentação perdida pelo vitiligo. (Imagem: TrueCreatives via Canva)

Uma nova abordagem contra o vitiligo está sendo desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo e apresentou um resultado que chama atenção na fase pré-clínica: camundongos tratados com uma formulação baseada em nanotecnologia apresentaram recuperação da pigmentação da pele após 15 dias.

A proposta, entretanto, vai além de simplesmente tentar devolver a cor às áreas despigmentadas. A equipe trabalha com a ideia de atuar simultaneamente sobre alguns dos processos que favorecem a doença, utilizando um sistema capaz de entregar diferentes moléculas diretamente na pele.

O trabalho foi desenvolvido por Ana Vitória Pupo Silvestrini, sob orientação de Maria Vitória Lopes Badra Bentley, na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP. 

Uma nanopartícula com funções diferentes

Mecanismo de ação da nanopartícula para vitiligo (Imagem: Fala Ciência)

O ponto central da tecnologia está em um tipo de nanopartícula líquido-cristalina, desenvolvida para transportar simultaneamente substâncias com funções complementares.

Uma delas é a piperina, composto associado à ativação de mecanismos relacionados à melanogênese, processo pelo qual os melanócitos produzem melanina.

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A outra frente utiliza siRNAs, pequenas moléculas de RNA capazes de reduzir a expressão de genes específicos. No projeto, os pesquisadores investigam alvos relacionados à resposta imunológica e ao estresse celular envolvidos na perda dos melanócitos.

A escolha dessa combinação não é casual. O vitiligo resulta de uma interação complexa entre sistema imunológico, estresse oxidativo e destruição dos melanócitos. Por isso, uma estratégia capaz de interferir em diferentes etapas do processo pode oferecer uma alternativa às abordagens que atuam sobre apenas um mecanismo.

O projeto registrado na FAPESP descreve justamente o desenvolvimento de nanopartículas para a coentrega de siRNAs e piperina, com estudos destinados a avaliar a atividade anti-inflamatória, antioxidante e melanogênica da formulação.

Testes em animais mostram sinais de recuperação da pele

Nos experimentos mais recentes, o tratamento foi avaliado em modelo animal de vitiligo. Após o período experimental de 15 dias, os pesquisadores observaram recuperação da pigmentação e alterações em mecanismos associados à resposta imunológica contra os melanócitos.

Esse tipo de resultado é importante para determinar se uma tecnologia merece avançar para etapas mais complexas de desenvolvimento. Contudo, existe uma diferença fundamental entre eficácia em animais e eficácia clínica.

Até o momento, a formulação não é um tratamento disponível para pessoas. Também não é possível afirmar que pacientes com vitiligo terão a mesma resposta observada nos camundongos.

A ciência por trás da nova estratégia

A abordagem também acompanha uma tendência atual da pesquisa sobre vitiligo: combinar modulação do sistema imune, regeneração dos melanócitos e sistemas avançados de entrega de medicamentos.

Em maio de 2026, Ana Vitória Pupo Silvestrini e colaboradores publicaram na revista Clinical Reviews in Allergy & Immunology uma revisão sobre os mecanismos envolvidos na doença e novas possibilidades terapêuticas. O trabalho discute justamente estratégias direcionadas à resolução da inflamação e à recuperação do tecido afetado.

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Ainda falta um caminho até os pacientes

O próximo grande desafio é descobrir se a estratégia pode apresentar segurança e eficácia em seres humanos. Para isso, são necessários estudos adicionais antes de qualquer eventual ensaio clínico.

Se os próximos resultados forem favoráveis, a tecnologia poderá abrir uma possibilidade interessante: em vez de apenas estimular a repigmentação, tratar simultaneamente mecanismos imunológicos e processos ligados à recuperação dos melanócitos.

Por enquanto, o dado mais importante é também o mais cauteloso: a tecnologia da USP apresentou resultados promissores em animais, mas ainda não representa uma cura ou tratamento aprovado para o vitiligo em seres humanos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn