Coração artificial francês cria nova esperança para quem espera por transplante 

Coração artificial Aeson foi criado para substituir o órgão natural. (Imagem: Divulgação)

Para algumas pessoas com insuficiência cardíaca terminal, esperar por um transplante significa enfrentar uma corrida contra o tempo. O problema é que o número de corações disponíveis para doação é limitado, enquanto a necessidade continua elevada.

Nesse cenário, uma tecnologia desenvolvida na França chama atenção por tentar fazer algo que durante décadas pareceu quase impossível: substituir completamente o coração humano por uma máquina capaz de manter a circulação do sangue.

O dispositivo é o Aeson, um coração artificial total produzido pela empresa francesa Carmat. Diferentemente de sistemas que auxiliam apenas um dos lados do coração, ele foi projetado para substituir os dois ventrículos, assumindo a função de bombeamento do órgão.

A proposta, entretanto, vai muito além de simplesmente manter o sangue circulando.

Uma máquina que tenta acompanhar o ritmo do corpo

O Aeson foi desenvolvido para reproduzir alguns dos principais movimentos e funções de um coração biológico. O sistema possui componentes pulsáteis e sensores capazes de acompanhar mudanças no fluxo sanguíneo.

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Isso permite que o dispositivo aumente ou reduza o débito cardíaco de acordo com a necessidade do organismo. Durante o repouso, por exemplo, a demanda por sangue é menor. Já durante uma atividade física, os músculos precisam de uma circulação mais intensa.

Essa capacidade de adaptação é fundamental para que um coração artificial não funcione apenas como uma bomba mecânica constante, mas consiga acompanhar diferentes situações fisiológicas.

Além disso, o equipamento foi projetado para permitir que pacientes deixem o ambiente hospitalar e recuperem parte da autonomia perdida durante a evolução da doença cardíaca.

Mais de 90 pessoas já receberam o dispositivo

A experiência acumulada com o Aeson vem aumentando desde os primeiros implantes. Segundo a publicação científica, mais de 90 pacientes em diferentes países já haviam recebido o coração artificial, incluindo mais de 60 após a retomada do programa em 2022.

Na França, o estudo EFICAS foi criado para avaliar a segurança e a eficácia do dispositivo principalmente como ponte para o transplante cardíaco.

Essa função é particularmente importante. Em vez de substituir definitivamente o transplante, o coração artificial pode manter o paciente vivo enquanto ele aguarda a disponibilidade de um órgão compatível.

Em uma análise inicial envolvendo pacientes em situação extremamente grave, os autores relataram 90% de sobrevida em seis meses. O resultado, entretanto, deve ser interpretado dentro do contexto específico desses pacientes e dos dados disponíveis, sem significar que o dispositivo tenha a mesma eficácia para todas as pessoas com insuficiência cardíaca.

Viver com um coração que não bate

Infográfico mostra o contraste entre coração natural e artificial Aeson. (Imagem: Fala Ciência)

Apesar dos avanços tecnológicos, existe um detalhe que torna essa experiência muito diferente de qualquer tratamento convencional.

O Aeson não reproduz o batimento cardíaco natural. Em vez da sensação familiar de pulsação, o paciente pode perceber o funcionamento contínuo do dispositivo por meio de um ruído mecânico.

Isso cria uma dimensão psicológica pouco comum. O coração não é apenas um órgão responsável pela circulação. Ele também está profundamente associado à percepção humana de vida, emoções e identidade.

Por isso, viver com um coração artificial pode representar uma transformação emocional e psicológica tão importante quanto a própria mudança física.

A tecnologia ainda tem limitações

Apesar do potencial, o Aeson está longe de ser uma solução simples ou acessível para qualquer paciente.

O sistema depende de componentes externos, incluindo baterias, e pode exigir equipamentos que limitam parte da mobilidade. Além disso, o tratamento está concentrado em centros especializados e envolve critérios rigorosos de seleção.

Também existem questões relacionadas ao custo e ao acesso. Se corações artificiais se tornarem cada vez mais eficientes, será necessário discutir quem poderá receber essas tecnologias e em quais circunstâncias.

Outro ponto importante é que o uso definitivo de um coração artificial ainda pertence ao campo das possibilidades futuras. Atualmente, a utilização do Aeson como ponte para o transplante continua sendo uma das aplicações centrais da tecnologia.

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A pesquisa que acompanha essa transformação

A análise foi publicada em 27 de janeiro de 2025 no European Journal of Heart Failure. O trabalho tem como autora principal Anne-Céline Martin, em colaboração com Bernard Cholley.

O artigo não apresenta apenas uma análise tecnológica. Os pesquisadores também discutem os impactos clínicos, psicológicos, sociais e éticos de viver com um coração artificial total.

A evolução do Aeson mostra, portanto, que a medicina já consegue substituir uma das funções mais fundamentais do organismo por uma máquina sofisticada. Porém, quanto mais a tecnologia se aproxima de reproduzir o funcionamento de um órgão humano, mais complexas ficam as perguntas sobre qualidade de vida, autonomia, acesso ao tratamento e os próprios limites da medicina.

Para quem enfrenta uma insuficiência cardíaca terminal e não pode esperar indefinidamente por um doador, entretanto, a existência de uma alternativa mecânica pode significar algo muito mais concreto: mais tempo para continuar vivendo enquanto o transplante não chega.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn