Vitaminas em goma: O perigo invisível por trás da nova moda saudável do Instagram

Vitaminas em goma podem causar excesso no organismo. (Foto: Kokhanevich collection via Canva)
Vitaminas em goma podem causar excesso no organismo. (Foto: Kokhanevich collection via Canva)

Coloridas, saborosas e com aparência de bala de goma, as vitaminas mastigáveis conquistaram espaço nas redes sociais e nas prateleiras das farmácias. A promessa é simples: transformar a suplementação em uma experiência mais agradável. Porém, por trás desse visual amigável existe uma questão que raramente aparece nas postagens do Instagram.

Ao contrário de um comprimido tradicional, a vitamina em goma é facilmente associada a um doce. Isso pode levar ao consumo acima da dose recomendada, especialmente entre crianças e até mesmo adultos que acreditam que “mais vitaminas” significam mais saúde. Na prática, o organismo não funciona dessa forma.

Cuidado com os excessos

As vitaminas são nutrientes essenciais, mas isso não significa que possam ser consumidas sem limites.

De maneira geral, elas são divididas em dois grupos:

Vitaminas hidrossolúveis

Incluem principalmente as vitaminas do complexo B e a vitamina C.

Quando consumidas em excesso, parte da quantidade não utilizada pelo organismo costuma ser eliminada pela urina. Embora doses muito elevadas também possam causar problemas, o risco de acúmulo é menor.

Vitaminas lipossolúveis

Incluem as vitaminas A, D, E e K.

Essas vitaminas são absorvidas junto às gorduras da alimentação e armazenadas no tecido adiposo e no fígado. Como consequência, o excesso pode permanecer no organismo por períodos prolongados.

É justamente nesse grupo que mora um dos maiores perigos das vitaminas em goma.

O acúmulo silencioso que muita gente ignora

Por terem sabor agradável, algumas pessoas acabam consumindo mais unidades do que o recomendado pelo fabricante.

Quando isso acontece repetidamente, vitaminas lipossolúveis podem se acumular gradualmente no organismo, favorecendo quadros de hipervitaminose.

Dependendo da vitamina envolvida, podem surgir sintomas como:

  • Náuseas e vômitos
  • Dor de cabeça
  • Alterações hepáticas
  • Fraqueza muscular
  • Confusão mental
  • Alterações ósseas
  • Problemas renais em casos específicos

A vitamina A, por exemplo, é uma das mais conhecidas por seu potencial tóxico quando ingerida em excesso por períodos prolongados.

Nem toda vitamina em goma entrega o que promete

Além do risco de consumo exagerado, existe outra questão menos conhecida: a estabilidade química.

As gomas possuem maior teor de umidade e uma estrutura mais sensível quando comparadas aos comprimidos convencionais. Isso pode favorecer alterações físicas e químicas durante o armazenamento.

Um artigo publicado na International Journal of Home Science, conduzido por Sarah Aijaz e publicado em 2025, analisou vantagens e limitações das vitaminas em goma. O trabalho destacou preocupações relacionadas à composição desses produtos, incluindo estabilidade, açúcar adicionado e características que favorecem o consumo excessivo quando comparados aos suplementos tradicionais.

Além disso, estudos sobre matrizes alimentares e suplementos mostram que fatores como temperatura, umidade e formato da formulação podem influenciar a degradação de nutrientes ao longo do tempo.

O marketing saudável nem sempre conta toda a história

As vitaminas em goma não são necessariamente perigosas quando utilizadas corretamente. O problema surge quando o consumidor passa a enxergá-las como doces funcionais e deixa de respeitar as orientações de uso.

Alguns cuidados importantes incluem:

  • Seguir rigorosamente a dose recomendada
  • Manter o produto fora do alcance de crianças
  • Evitar combinar múltiplos suplementos sem orientação profissional
  • Observar a quantidade de vitaminas lipossolúveis presente na fórmula
  • Armazenar conforme as instruções do fabricante

O formato mudou, mas as regras continuam as mesmas

As vitaminas em goma representam uma alternativa prática e agradável para quem tem dificuldade em engolir comprimidos. No entanto, a aparência divertida pode mascarar um fato importante: elas continuam sendo suplementos com potencial de causar efeitos adversos quando consumidos de forma inadequada.

Por isso, antes de encarar essas gomas como simples guloseimas saudáveis, vale lembrar que o organismo possui limites. E quando esses limites são ultrapassados, até mesmo nutrientes essenciais podem se transformar em um problema para a saúde.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn