Um abacate por dia pode melhorar um importante marcador cardiovascular 

Abacate diário foi associado a mudanças nas partículas de LDL. (Imagem: Fala Ciência)

Uma mudança simples na alimentação chamou a atenção de pesquisadores que investigam fatores relacionados à saúde do coração. Durante meses, adultos com obesidade incorporaram o abacate à rotina, sem precisar transformar completamente seus hábitos alimentares.

A estratégia parecia simples, mas os exames realizados antes e depois do período de acompanhamento revelaram uma alteração em partículas que circulam pelo sangue e estão relacionadas ao transporte de colesterol. O resultado ajuda a explicar por que determinados alimentos podem influenciar o sistema cardiovascular mesmo quando não provocam mudanças perceptíveis no peso corporal.

A descoberta faz parte de um ensaio clínico conduzido por pesquisadores da Pennsylvania State University, que avaliaram como uma intervenção alimentar específica poderia afetar diferentes marcadores relacionados ao risco cardiovascular. E o que apareceu nas análises chamou atenção.

Um detalhe do colesterol que o exame comum pode não mostrar

Entenda a diferença entre a massa de LDL e o número de partículas. (Imagem: Fala Ciência)

Quando se fala em colesterol ruim, normalmente a referência é o LDL colesterol (LDL-C). Entretanto, existe outra medida que pode fornecer informações adicionais: a quantidade de partículas de LDL (LDL-P) circulando no sangue.

Isso acontece porque o colesterol não viaja livremente pela corrente sanguínea. Ele é carregado por partículas de lipoproteína. Assim, duas pessoas podem apresentar valores semelhantes de LDL-C, mas ter quantidades diferentes de partículas transportadoras.

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Essa diferença pode ser relevante porque as partículas de LDL participam da deposição de colesterol na parede das artérias. Por isso, observar a concentração dessas estruturas pode acrescentar uma dimensão à avaliação do risco cardiovascular.

Seis meses de abacate produziram uma mudança importante

A pesquisa foi liderada por Janhavi J. Damani, do Departamento de Ciências Nutricionais da Pennsylvania State University.

Publicado em 12 de junho de 2026 no Journal of Clinical Lipidology, o trabalho analisou uma pesquisa clínica randomizada de 26 semanas. Os participantes mantiveram seus hábitos alimentares habituais, mas um dos grupos recebeu a orientação de consumir um abacate diariamente. O grupo de comparação continuou sua alimentação habitual sem receber abacates.

Ao final do período, o grupo que consumiu a fruta apresentou uma redução média de 49,1 nmol/L na concentração total de partículas de LDL em comparação ao grupo controle. O resultado foi estatisticamente significativo.

Os pesquisadores estimaram que essa mudança corresponderia a aproximadamente 4% de redução no risco cardiovascular. É importante, porém, entender que essa porcentagem é uma estimativa baseada na associação entre LDL-P e risco cardiovascular, e não significa que o ensaio tenha demonstrado diretamente 4% menos infartos ou mortes.

O abacate não provocou perda de peso

Existe outro ponto importante nos resultados. O consumo diário da fruta não alterou significativamente a concentração de outras partículas de lipoproteínas, incluindo partículas de HDL e lipoproteínas ricas em triglicerídeos. Também não houve diferença significativa nas apolipoproteínas A e B.

Além disso, análises anteriores do mesmo ensaio não encontraram redução significativa da gordura visceral com a inclusão de um abacate por dia. Portanto, o possível benefício observado neste estudo parece estar relacionado principalmente ao perfil das partículas de LDL, e não à perda de peso.

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Uma pequena mudança dentro de uma alimentação maior

O resultado é interessante justamente por ter sido obtido em condições mais próximas da vida cotidiana. Os participantes não tiveram toda a alimentação rigidamente controlada pelos pesquisadores.

Ainda assim, não é correto transformar o abacate em uma solução isolada contra doenças cardiovasculares. Alimentação equilibrada, atividade física, controle da pressão arterial, não fumar e acompanhamento médico continuam sendo componentes fundamentais da prevenção.

Assim, o principal achado não é que um abacate por dia elimina o risco cardíaco, mas que uma mudança alimentar relativamente simples pode melhorar um marcador específico relacionado às lipoproteínas aterogênicas em adultos com obesidade abdominal.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn