Paciente cega recupera a visão após receber implante corneano bioimpresso em 3D

Primeira paciente apresentou restauração visual após receber o implante. (Imagem: Fala Ciência)

Uma paciente que era cega de um dos olhos recuperou a visão após receber um implante corneano produzido por bioimpressão 3D. O procedimento foi realizado em Israel e representa um dos primeiros testes em humanos de uma tecnologia que utiliza células da própria córnea para desenvolver um tecido destinado a restaurar uma estrutura essencial para a visão.

O implante, chamado PB-001, foi desenvolvido pela Precise Bio e aplicado no Rambam Medical Center, em Haifa. O primeiro procedimento ocorreu em outubro de 2025 e, alguns meses depois, outros dois pacientes também receberam o dispositivo durante o mesmo ensaio clínico.

O resultado chamou atenção porque a tecnologia não depende simplesmente de uma prótese artificial. O PB-001 é produzido a partir de células endoteliais da córnea, organizadas por meio de uma plataforma de biofabricação tridimensional.

Uma pequena camada que determina a transparência do olho

Impressão 3D de córnea com células vivas. (Imagem: Fala Ciência)

A córnea funciona como uma espécie de janela transparente na parte frontal do olho. Para que ela permaneça adequada à passagem da luz, entretanto, é necessário que suas diferentes camadas trabalhem corretamente.

Uma delas é o endotélio corneano, localizado na superfície posterior da córnea. Essas células ajudam a controlar o equilíbrio de líquidos dentro do tecido. Quando sua função é comprometida, a córnea pode acumular líquido e desenvolver edema, ficando mais espessa e menos transparente.

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É justamente nesse ponto que o PB-001 pretende atuar.

Em vez de substituir toda a córnea, o implante foi desenvolvido para fornecer tecido endotelial capaz de assumir essa função. Durante o procedimento, a estrutura bioimpressa é inserida no olho e foi projetada para adquirir uma configuração semelhante à organização natural da região tratada.

A bioimpressão pode levar células vivas para dentro do implante

A tecnologia faz parte de uma área crescente da medicina regenerativa. Na bioimpressão 3D, equipamentos controlam a deposição de biomateriais e células para formar estruturas tridimensionais com características planejadas.

Essa possibilidade foi analisada por Bowen Zhang, autor principal de uma revisão publicada na revista científica Trends in Biotechnology em 18 de março de 2026. O trabalho descreve avanços na utilização da impressão tridimensional para desenvolver estruturas corneanas e estratégias de regeneração.

A revisão destaca o potencial da técnica para produzir estruturas com geometria controlada e incorporar células vivas, características que podem ser importantes para a integração dos tecidos biofabricados ao organismo.

A recuperação visual ainda é um resultado inicial

A informação mais impressionante veio do acompanhamento da primeira paciente. Em atualização divulgada em 23 de fevereiro de 2026, a Precise Bio informou que ela apresentou restauração da visão após receber o PB-001.

Na mesma atualização, a empresa informou que o segundo e o terceiro pacientes também haviam sido submetidos ao procedimento. Os três transplantes realizados até aquele momento foram concluídos sem relatos de eventos adversos graves.

Apesar do resultado, a tecnologia ainda está longe de ser considerada um tratamento comprovado.

O PB-001 está sendo avaliado em um ensaio clínico de fase 1, de braço único, envolvendo pacientes com edema corneano provocado por disfunção endotelial. O estudo foi planejado para incluir aproximadamente 10 a 15 participantes e avaliar principalmente a segurança e a tolerabilidade do implante.

Além disso, os pesquisadores acompanharão sinais iniciais de eficácia, incluindo os resultados visuais após seis meses.

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Próximos pacientes serão decisivos para a tecnologia

O caso da primeira paciente é importante, mas um único resultado não permite determinar se a técnica funcionará de maneira consistente em diferentes pessoas.

Por isso, os próximos participantes serão fundamentais. Será necessário observar se a recuperação visual pode ser reproduzida, quanto tempo os benefícios permanecem e se o tecido bioimpresso continua funcionando adequadamente dentro do olho.

A Precise Bio informou que pretende continuar o recrutamento e que os principais resultados do estudo estavam previstos para o quarto trimestre de 2026.

Se os resultados forem positivos, a tecnologia poderá representar uma alternativa futura para pessoas com doenças que comprometem o endotélio corneano. Isso também poderia reduzir a dependência exclusiva de córneas provenientes de doadores, embora ainda sejam necessários estudos maiores antes de qualquer conclusão.

Por enquanto, o caso representa algo mais específico e igualmente relevante: uma demonstração clínica inicial de que um tecido corneano bioimpresso a partir de células humanas pode ser implantado em um paciente e acompanhar-se de recuperação visual.

O próximo passo será descobrir se esse resultado inicial pode se transformar em uma terapia segura, duradoura e disponível para um número muito maior de pessoas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn