Enquanto o corpo descansa, o cérebro continua trabalhando. Durante a noite, diferentes circuitos neurais alternam níveis de atividade para controlar sono, vigília, atenção e memória. Entre essas estruturas está o locus coeruleus, uma pequena região localizada no tronco encefálico que vem despertando interesse nas pesquisas sobre envelhecimento e doença de Alzheimer.
O motivo é que essa estrutura participa da regulação da atividade cerebral e apresenta conexões importantes com regiões envolvidas na cognição. Além disso, alterações no locus coeruleus estão sendo investigadas como possíveis componentes dos processos que antecedem algumas doenças neurodegenerativas.
Nesse contexto, compreender a relação entre essa região e o sono REM, fase caracterizada por intensa atividade cerebral e na qual ocorrem muitos sonhos, pode ajudar os cientistas a entender melhor como o cérebro envelhece.
Uma pequena estrutura com uma função enorme
O locus coeruleus é uma estrutura pequena, localizada na região dorsal da ponte, no tronco encefálico. Apesar de seu tamanho, ela é uma das principais fontes de noradrenalina do cérebro.
Esse neurotransmissor participa de processos relacionados à atenção, alerta e resposta a estímulos. Durante o sono, a atividade do locus coeruleus também sofre mudanças importantes, contribuindo para a organização dos diferentes estados de sono e vigília.
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Entrar no Canal do WhatsAppPor isso, pesquisadores vêm tentando descobrir se diferenças no funcionamento dessa região poderiam ajudar a explicar por que algumas pessoas apresentam determinadas características do sono ao longo do envelhecimento.
Estudo analisou sono REM e atividade cerebral
Uma pesquisa publicada na revista Journal of Biomedical Science em 11 de março de 2025, tendo Nasrin Mortazavi como primeira autora, investigou justamente essa relação.
O estudo avaliou 52 adultos saudáveis, sendo 34 jovens, com idade média de aproximadamente 22 anos, e 18 adultos mais velhos, com média próxima de 61 anos. Os pesquisadores utilizaram ressonância magnética funcional de 7 Tesla para analisar a atividade do locus coeruleus e também registraram o sono por meio de eletroencefalografia.
Os resultados mostraram que a atividade do locus coeruleus durante a vigília estava relacionada à intensidade do sono REM e a alterações específicas da atividade elétrica cerebral que antecediam episódios dessa fase do sono. Entre os participantes mais velhos, algumas dessas relações apresentaram padrões diferentes dos observados nos adultos jovens.
A conclusão dos pesquisadores foi que um nível equilibrado da atividade tônica do locus coeruleus durante a vigília pode ser importante para a expressão adequada do sono REM.
A ligação com Alzheimer ainda está sendo investigada
É justamente aqui que é necessário ter cautela. O estudo não diagnosticou Alzheimer nos participantes e não demonstrou que alterações no sono REM causem a doença.
A relação com Alzheimer aparece porque o locus coeruleus é uma estrutura considerada relevante nas pesquisas sobre neurodegeneração. A própria publicação aponta possíveis implicações para condições como Alzheimer e Parkinson, mas os resultados apresentados são sobre a relação entre atividade do locus coeruleus e sono REM em adultos saudáveis.
Portanto, não é correto afirmar que uma alteração no sono REM seja, por si só, um sinal precoce de Alzheimer.
O interesse científico está em outra questão: se mudanças na atividade de regiões envolvidas no sono e na vigília podem ajudar a compreender processos cerebrais que ocorrem durante o envelhecimento, talvez essas informações possam futuramente contribuir para pesquisas sobre doenças neurodegenerativas.
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Sono pode ajudar a entender o envelhecimento cerebral
A investigação do sono ganhou espaço justamente porque ele está ligado a funções fundamentais do cérebro, incluindo memória, processamento de informações e regulação da atividade neural.
Ainda serão necessários estudos maiores e acompanhamento de longo prazo para determinar se alterações específicas do sono ou do funcionamento do locus coeruleus podem realmente servir como marcadores precoces de risco para Alzheimer.
Por enquanto, uma noite de sono fragmentado ou mudanças na qualidade do sono não significam que uma pessoa esteja desenvolvendo Alzheimer. Entretanto, compreender o que acontece no cérebro enquanto dormimos pode abrir novos caminhos para estudar o envelhecimento cerebral e, no futuro, identificar alterações relacionadas às doenças neurodegenerativas antes que os sintomas se tornem evidentes.
