Uma mudança importante na assistência oncológica brasileira deve ampliar o acesso a tratamentos modernos para pessoas com câncer de pulmão. A partir de outubro de 2026, o Sistema Único de Saúde (SUS) começará a disponibilizar gradualmente três medicamentos de alta tecnologia: brigatinibe, gefitinibe e durvalumabe.
A previsão foi anunciada pelo Ministério da Saúde em 31 de agosto. Segundo a pasta, cerca de 1,9 mil pacientes deverão ser beneficiados inicialmente. Os tratamentos serão financiados integralmente pelo governo federal dentro da nova Assistência Farmacêutica Oncológica (AF-Onco).
A medida chama atenção principalmente pelo preço elevado dessas terapias no setor privado. Somados, brigatinibe e gefitinibe ultrapassam R$ 604 mil por ano, enquanto o tratamento com durvalumabe pode superar R$ 643 mil anuais, de acordo com os valores apresentados pelo Ministério da Saúde.
Três medicamentos, mecanismos diferentes contra o tumor
Embora sejam destinados ao tratamento do câncer de pulmão, os três medicamentos não funcionam da mesma maneira.
O brigatinibe e o gefitinibe pertencem ao grupo das terapias-alvo. São medicamentos administrados por via oral que atuam sobre alterações moleculares específicas encontradas em determinados tumores.
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Entrar no Canal do WhatsAppEssa característica é importante porque o tratamento não é indicado indiscriminadamente para todos os pacientes. A escolha depende das características clínicas e moleculares do câncer, incluindo a presença de determinadas alterações genéticas.
O brigatinibe, por exemplo, foi incorporado ao SUS para pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células com alteração no gene ALK (CPNPC), em estágio localmente avançado ou metastático, como primeira linha de tratamento.
Já o gefitinibe é direcionado a pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas avançado ou metastático que apresentam mutação no EGFR, também em primeira linha.
O terceiro medicamento tem uma estratégia diferente.
O durvalumabe é uma imunoterapia que atua sobre a interação entre o tumor e o sistema imunológico. Ele é indicado, dentro da política anunciada, para pessoas com câncer de pulmão em estágio III que não podem ser submetidas à cirurgia.
Na prática, a imunoterapia ajuda o sistema de defesa a reconhecer e combater as células tumorais com maior eficiência.
Um estudo publicado em 2026 no Journal of Thoracic Oncology analisou 208 pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células em estágio III tratados com quimiorradioterapia seguida de durvalumabe. Liderado por Nikhil P. Mankuzhy, o trabalho foi publicado online em 29 de janeiro de 2026.
A pesquisa encontrou diferença na sobrevida livre de progressão de acordo com o perfil molecular dos tumores. Pacientes com mutação em KRAS apresentaram mediana de 16 meses, contra 28 meses entre aqueles sem essa alteração. As características genéticas do tumor podem influenciar os resultados do tratamento combinado.
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Uma nova estrutura para distribuir medicamentos oncológicos
A chegada desses tratamentos faz parte de uma mudança mais ampla na organização da assistência farmacêutica para o câncer.
A AF-Onco estabelece novas regras para financiamento, aquisição, distribuição e dispensação dos medicamentos utilizados na oncologia. Em setembro, o Ministério da Saúde concluiu a regulamentação necessária para colocar o modelo em funcionamento.
A distribuição dos três medicamentos seguirá modelos diferentes. O brigatinibe terá aquisição centralizada pelo Ministério da Saúde. O gefitinibe será adquirido de forma descentralizada, enquanto o durvalumabe contará com negociação nacional de preços.
Ao todo, a AF-Onco prevê 23 medicamentos oncológicos de alto custo, com estimativa de alcançar mais de 100 mil pessoas e orçamento anual de aproximadamente R$ 2,1 bilhões.
Assim, a medida representa uma ampliação do acesso a terapias que, devido ao alto custo, seriam difíceis de alcançar para grande parte dos pacientes fora do sistema público. A oferta, entretanto, seguirá critérios clínicos e moleculares definidos para cada tratamento, dentro dos serviços habilitados em oncologia.
