Sinusite viral ou bacteriana? O detalhe na secreção que muda o tratamento 

Nem toda sinusite precisa de antibiótico. (Foto: Getty Images via Canva)
Nem toda sinusite precisa de antibiótico. (Foto: Getty Images via Canva)

Quem sofre com sinusite conhece bem a sensação. Basta abaixar a cabeça para amarrar um sapato ou pegar um objeto no chão e surge uma pressão intensa na testa, ao redor dos olhos ou nas maçãs do rosto. Parece até que existe algo pesado dentro dos ossos da face sendo puxado pela gravidade.

A explicação, porém, é mais interessante do que muita gente imagina. O desconforto está relacionado ao funcionamento dos seios paranasais, estruturas que desempenham um papel importante na respiração e que podem se transformar em verdadeiras câmaras de pressão durante uma crise de sinusite.

O que existe dentro dos ossos da face?

Os seios paranasais são cavidades cheias de ar localizadas nos ossos da testa, das maçãs do rosto, atrás do nariz e entre os olhos. Essas estruturas são revestidas por uma fina mucosa que produz muco continuamente.

Em condições normais, esse muco é drenado por pequenos canais chamados óstios, que conectam os seios paranasais à cavidade nasal.

O problema começa quando uma infecção respiratória, alergia ou irritação provoca inflamação da mucosa. O tecido incha e os óstios podem ficar parcialmente ou totalmente bloqueados.

Quando isso acontece:

  • O muco deixa de ser drenado adequadamente.
  • O ar dentro dos seios paranasais fica preso.
  • A pressão interna se altera.
  • Terminações nervosas locais são comprimidas.

É justamente por isso que muitas pessoas sentem mais dor ao inclinar a cabeça para frente. A mudança de posição modifica a distribuição da pressão dentro dessas cavidades inflamadas.

O grande equívoco sobre o catarro verde

Muitas pessoas acreditam que catarro amarelo ou verde significa obrigatoriamente infecção bacteriana. No entanto, essa ideia não é sustentada pelas evidências científicas.

Durante uma infecção viral, células de defesa chamadas neutrófilos migram para a região inflamada. Essas células contêm enzimas e pigmentos que podem alterar a coloração da secreção nasal, tornando-a amarelada ou esverdeada.

Ou seja, a cor do catarro, sozinha, não é capaz de diferenciar uma sinusite viral de uma bacteriana.

Segundo a revisão Acute Rhinosinusitis: Rapid Evidence Review, publicada na revista American Family Physician em janeiro de 2025, com autoria principal de Faith M. Butler, distinguir sinusites virais e bacterianas continua sendo um desafio clínico, e a presença de secreção purulenta isoladamente não confirma infecção bacteriana. Além disso, o trabalho destaca que a maioria dos casos agudos tem origem viral.

Quando realmente suspeitar de bactéria?

A maioria das sinusites agudas melhora espontaneamente sem necessidade de antibióticos.

Os sinais que aumentam a suspeita de uma infecção bacteriana incluem:

  • Sintomas persistindo por mais de 10 dias sem melhora.
  • Febre alta associada à dor facial intensa.
  • Piora importante após uma melhora inicial.
  • Dor facial unilateral mais intensa.

Esses critérios são utilizados em diretrizes médicas para evitar o uso desnecessário de antibióticos.

Por que antibióticos nem sempre ajudam?

Estima-se que cerca de 90% das rinossinusites agudas tenham origem viral, situação em que os antibióticos não oferecem benefício clínico significativo. Nessas circunstâncias, o organismo normalmente elimina o vírus sozinho ao longo dos dias.

O uso inadequado desses medicamentos pode favorecer resistência bacteriana, além de aumentar o risco de efeitos adversos como diarreia e alterações da microbiota intestinal.

Por isso, identificar corretamente a causa da sinusite é fundamental. Em muitos casos, o melhor tratamento envolve hidratação adequada, lavagem nasal com solução salina e controle da inflamação, e não necessariamente um antibiótico.

Da próxima vez que a dor aumentar ao abaixar a cabeça, lembre-se: o problema pode estar na pressão acumulada dentro dos seios paranasais, e não na cor do catarro.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn