Seu cérebro pode fazer o mundo encolher ou crescer de repente; entenda esse fenômeno 

Alterações cerebrais podem distorcer sua percepção visual. (Foto: Africa Images via Canva)

Imagine olhar para uma cadeira e enxergá-la do tamanho de um brinquedo. Ou observar uma caneca e ter a impressão de que ela ficou enorme de um instante para outro. Embora pareça cena de um filme de fantasia, esse fenômeno realmente existe e pode acontecer em pessoas com determinadas condições neurológicas. As alterações conhecidas como micropsia e macropsia modificam a maneira como o cérebro interpreta as informações visuais, criando uma percepção distorcida do tamanho dos objetos, mesmo quando os olhos estão funcionando normalmente.

Esses episódios costumam durar poucos minutos, mas podem causar medo, confusão e ansiedade. Felizmente, na maioria dos casos, não significam que a pessoa esteja perdendo a sanidade. Na realidade, tratam-se de ilusões perceptivas provocadas por alterações temporárias no processamento cerebral.

O cérebro pode mudar a escala da realidade

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, micropsia e macropsia não surgem porque os olhos enxergam errado. O problema está na forma como o cérebro processa os estímulos visuais recebidos pela retina.

Na micropsia, os objetos parecem muito menores do que realmente são. Já na macropsia, acontece o oposto: tudo parece exageradamente grande.

Essas alterações podem estar relacionadas a diferentes situações, entre elas:

  • enxaqueca, especialmente quando há aura;
  • epilepsia;
  • algumas infecções virais;
  • traumatismos cranianos;
  • acidentes vasculares cerebrais;
  • outras doenças que afetam áreas cerebrais responsáveis pela percepção visual.

Em muitos pacientes, esses episódios fazem parte da chamada Síndrome de Alice no País das Maravilhas, um distúrbio neurológico raro que também pode alterar a percepção de distância, velocidade, tempo e até do tamanho do próprio corpo.

Mais do que um problema de visão

Durante um episódio, a pessoa normalmente percebe que existe algo incomum acontecendo. Apesar de enxergar os objetos em proporções diferentes, ela costuma reconhecer que aquela percepção não corresponde à realidade.

Essa característica ajuda os médicos a diferenciar essas alterações de outras doenças neurológicas e psiquiátricas.

A intensidade também varia bastante. Algumas pessoas apresentam pequenas distorções, enquanto outras relatam mudanças impressionantes que parecem transformar completamente o ambiente ao redor.

Embora muitos episódios desapareçam espontaneamente, eles não devem ser ignorados. Quando surgem pela primeira vez, tornam-se frequentes ou aparecem acompanhados de outros sintomas neurológicos, é importante procurar avaliação médica.

Estudo recente amplia o conhecimento sobre essas alterações perceptivas

Um relato de caso publicado na revista científica The Neurohospitalist, com autoria principal de Tala Allababidi e publicado online em 26 de dezembro de 2025, descreveu um paciente que desenvolveu micropsia, poliópia e outras alterações visuais após sofrer múltiplos infartos cerebrais. O trabalho mostrou que lesões em diferentes regiões do cérebro podem provocar distorções complexas da percepção visual, indicando que essas manifestações podem ocorrer por mecanismos neurológicos distintos e exigem investigação clínica cuidadosa.

Embora seja um relato de caso, o estudo amplia o entendimento sobre como diferentes áreas cerebrais participam da construção da percepção visual e auxilia profissionais de saúde no reconhecimento dessas manifestações pouco frequentes.

Quando esses episódios merecem atenção médica?

Um episódio isolado pode estar associado a uma enxaqueca ou a outra alteração transitória. Ainda assim, qualquer mudança súbita na percepção visual merece avaliação, principalmente quando ocorre pela primeira vez.

Procure atendimento médico se houver:

  • episódios repetitivos;
  • dor de cabeça intensa junto às alterações visuais;
  • perda de força ou sensibilidade;
  • dificuldade para falar;
  • convulsões;
  • alterações visuais persistentes.

O neurologista poderá solicitar exames de imagem e outros testes para identificar a causa do problema e definir o tratamento mais adequado.

Embora pareçam fenômenos impossíveis, micropsia e macropsia mostram como nossa percepção depende muito mais do cérebro do que apenas dos olhos. Quando determinadas áreas cerebrais sofrem alterações temporárias ou permanentes, até mesmo objetos comuns podem parecer gigantescos ou minúsculos. Compreender esses fenômenos permite reconhecer sinais que, em alguns casos, podem indicar doenças neurológicas que necessitam de diagnóstico e acompanhamento especializados.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn