Cientistas criam spray que transforma hemorragias graves em feridas controladas 

Spray transforma pó em gel protetor sobre a ferida. (Foto: Africa Images via Canva)

Em situações de trauma grave, poucos segundos podem fazer diferença entre a vida e a morte. A perda intensa de sangue continua sendo uma das principais causas de óbitos após ferimentos graves, principalmente quando o atendimento médico demora a chegar. Agora, pesquisadores desenvolveram uma tecnologia que pode mudar a forma como esses casos são tratados: um pó aplicado em spray capaz de formar uma barreira protetora sobre a ferida em aproximadamente um segundo.

A inovação foi criada para superar limitações dos métodos tradicionais de controle de sangramento, especialmente em situações extremas, como acidentes, desastres e ambientes com poucos recursos médicos.

Um material que se adapta ao formato da ferida

Os produtos usados atualmente para controlar hemorragias incluem compressas e adesivos hemostáticos. Embora sejam úteis, alguns apresentam dificuldades quando aplicados em feridas profundas, irregulares ou de difícil acesso.

Pensando nesse problema, cientistas desenvolveram um material em forma de pó, capaz de alcançar diferentes formatos de lesões e preencher espaços onde métodos convencionais podem apresentar menor eficiência.

Quando entra em contato com o sangue, o material passa rapidamente por uma transformação química, formando um hidrogel resistente que ajuda a bloquear a saída de sangue.

Essa característica permite que o produto seja utilizado em situações nas quais rapidez e facilidade de aplicação são essenciais.

Como funciona o pó hemostático desenvolvido pelos pesquisadores

O novo material, chamado pó AGCL, foi criado por pesquisadores do KAIST (Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia) e combina componentes biocompatíveis, incluindo:

  • Alginato e goma gelana, que participam da formação rápida do gel.
  • Quitosana, que auxilia na interação com componentes do sangue e contribui para o processo de coagulação.

Ao ser aplicado sobre uma lesão, o pó reage com íons presentes naturalmente no sangue, especialmente o cálcio, formando uma estrutura tridimensional semelhante a uma barreira protetora.

Nos testes realizados, o material conseguiu absorver cerca de 725% do seu próprio peso em sangue e apresentou força adesiva superior a 40 kPa, permitindo maior estabilidade sobre a área lesionada.

Pesquisa avalia segurança e capacidade de controlar sangramentos

Um estudo publicado na revista Advanced Functional Materials, liderado por Youngju Son e publicado online em 28 de outubro de 2025, apresentou o desenvolvimento do pó de gelificação iônica para hemostasia ultrarrápida e cicatrização acelerada de feridas.

A pesquisa avaliou o desempenho do biomaterial em testes laboratoriais e modelos animais. Os resultados indicaram baixa toxicidade, com taxa de hemólise inferior a 3%, viabilidade celular acima de 99% e atividade antibacteriana próxima de 99,9%.

Além de interromper o sangramento, os experimentos mostraram melhora em processos relacionados à cicatrização, incluindo regeneração de vasos sanguíneos e formação de colágeno.

Em modelos de lesão hepática, o material reduziu a perda de sangue e o tempo necessário para controlar a hemorragia quando comparado a agentes hemostáticos comerciais.

Uma tecnologia criada para emergências pode chegar à medicina civil

Embora tenha sido desenvolvido pensando inicialmente em cenários de trauma intenso, o pó AGCL pode ter aplicações muito além do campo militar.

Entre os possíveis usos estão:

  • Atendimento pré-hospitalar em acidentes.
  • Resposta rápida em áreas de desastre.
  • Controle de sangramentos durante procedimentos médicos.
  • Uso em regiões com acesso limitado a hospitais.

Outro ponto importante é a estabilidade do produto. Segundo os pesquisadores, o material manteve suas propriedades por até dois anos em temperatura ambiente e condições de alta umidade, uma característica relevante para armazenamento em locais onde o acesso a equipamentos médicos é limitado.

A descoberta mostra como a engenharia de materiais pode contribuir para soluções médicas inovadoras. Ao transformar um simples pó em uma barreira capaz de controlar rapidamente uma hemorragia, a tecnologia abre uma nova perspectiva para salvar vidas em situações críticas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn