Seu café da manhã pode estar comprometendo a eficácia do remédio; entenda

A ordem entre café e medicamento faz diferença. (Foto: Getty Images via Canva)
A ordem entre café e medicamento faz diferença. (Foto: Getty Images via Canva)

Você acorda, toma seu medicamento de rotina e segue para a cozinha em busca daquela primeira xícara de café. Para milhões de pessoas, esse ritual faz parte do começo do dia. No entanto, o que parece uma combinação inofensiva pode desencadear uma série de interações dentro do organismo. Dependendo do remédio utilizado, o café pode alterar sua absorção ou modificar a forma como ele é processado pelo corpo, reduzindo sua eficácia ou aumentando o risco de efeitos indesejados.

Embora muita gente associe os cuidados com medicamentos apenas à dose correta, especialistas alertam que o horário e a forma de administração também podem influenciar diretamente os resultados do tratamento.

Uma disputa silenciosa dentro do organismo

Quando um medicamento é ingerido, ele passa por diversas etapas antes de produzir o efeito esperado. Esse processo inclui absorção, distribuição, metabolização e eliminação. É justamente nesse percurso que podem ocorrer as chamadas interações farmacocinéticas.

O café contém substâncias bioativas, como cafeína, taninos e diversos compostos fenólicos. Esses componentes podem interferir na absorção de determinados medicamentos e também influenciar o funcionamento de enzimas responsáveis por metabolizar substâncias no fígado.

Além disso, a bebida estimula a produção de ácido gástrico e acelera alguns processos digestivos, o que pode alterar o tempo de permanência de certos medicamentos no trato gastrointestinal. Dependendo do fármaco, isso pode resultar em menor aproveitamento pelo organismo.

Nem todo remédio reage da mesma forma

As interações entre café e medicamentos variam bastante. Alguns remédios praticamente não sofrem influência, enquanto outros exigem maior atenção.

Um dos exemplos mais conhecidos é a levotiroxina, utilizada no tratamento do hipotireoidismo. Estudos anteriores já demonstraram que o consumo de café próximo ao horário da medicação pode reduzir significativamente sua absorção intestinal.

Além dela, determinados medicamentos podem apresentar alterações em sua ação quando consumidos junto com grandes quantidades de cafeína, incluindo alguns tratamentos para:

  • Depressão
  • Ansiedade
  • Hipertensão arterial
  • Osteoporose
  • Doenças respiratórias

Por isso, seguir corretamente as orientações da bula e dos profissionais de saúde é fundamental para evitar problemas.

O que os pesquisadores descobriram sobre café e medicamentos 

Uma revisão científica publicada em 27 de janeiro de 2025 na revista European Journal of Drug Metabolism and Pharmacokinetics, liderada por Jenny Truong, investigou como a cafeína interage com diferentes classes de antidepressivos.

Os pesquisadores analisaram estudos envolvendo medicamentos amplamente utilizados no tratamento da depressão e observaram que a cafeína pode influenciar tanto a farmacocinética quanto a farmacodinâmica desses fármacos. Em outras palavras, ela pode alterar a forma como alguns medicamentos são processados pelo organismo e também modificar seus efeitos.

A revisão destacou a participação das enzimas da família citocromo P450, especialmente a CYP1A2, responsável pelo metabolismo da cafeína e de diversos medicamentos. Quando substâncias utilizam as mesmas vias metabólicas, pode ocorrer uma espécie de competição bioquímica, alterando a velocidade com que cada uma delas é processada.

Os autores observaram ainda que fatores como dose de cafeína, frequência de consumo e características individuais do paciente podem influenciar a intensidade dessas interações.

Um cuidado simples que pode fazer diferença

A boa notícia é que, na maioria dos casos, não é necessário abandonar o café. O mais importante é respeitar os intervalos recomendados para cada medicamento.

Algumas orientações simples ajudam a reduzir riscos:

  • Tomar medicamentos com água, salvo orientação diferente do médico;
  • Ler atentamente as instruções da bula;
  • Respeitar os horários indicados para administração;
  • Evitar consumir café imediatamente após medicamentos que exigem absorção precisa;
  • Tirar dúvidas com médico ou farmacêutico sempre que iniciar um novo tratamento.

Pequenos hábitos diários podem ter um impacto muito maior do que parecem. Em alguns casos, esperar alguns minutos antes de tomar aquela xícara de café pode ser uma medida simples para preservar a eficácia do tratamento e garantir que o medicamento cumpra exatamente a função para a qual foi prescrito.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn