Sente coceira na garganta ao comer maçã ou banana? Pode ser uma alergia ao pólen da primavera 

Coceira após comer maçã pode estar ligada à alergia ao pólen. (Imagem: Fala Ciência)

Uma fruta aparentemente inofensiva pode provocar uma reação bastante curiosa: coceira na boca, formigamento na língua ou irritação na garganta logo após a primeira mordida. Quando isso acontece principalmente durante a temporada de maior circulação de pólen, existe uma possibilidade que merece atenção: a síndrome da alergia ao pólen e alimentos, também conhecida como síndrome da alergia oral.

O fenômeno acontece por causa de uma espécie de confusão do sistema imunológico. Pessoas sensibilizadas a determinados pólens podem produzir anticorpos contra proteínas presentes nessas partículas. Algumas frutas e vegetais possuem proteínas estruturalmente semelhantes e, por isso, podem desencadear uma reação cruzada.

A reação cruzada que transforma fruta em gatilho de alergia 

Entenda a reação cruzada entre pólen e maçã. (Imagem: Fala Ciência)

A reação ocorre porque algumas proteínas dos alimentos apresentam semelhanças com proteínas encontradas no pólen. No caso da maçã e do pólen de bétula, por exemplo, uma das proteínas envolvidas é a Mal d 1, relacionada estruturalmente ao alérgeno Bet v 1 do pólen.

Por isso, quem apresenta alergia respiratória sazonal pode perceber sintomas ao consumir determinados alimentos, especialmente frutas cruas.

Entre as manifestações mais comuns estão:

  • coceira na boca ou garganta;
  • formigamento nos lábios;
  • sensação de irritação na língua;
  • leve inchaço na boca;
  • desconforto logo após comer o alimento.

Na maioria dos casos, os sintomas ficam restritos à região oral e desaparecem rapidamente. Entretanto, reações mais intensas podem acontecer, principalmente em pessoas com alergias alimentares específicas.

A primavera pode mudar a intensidade da reação

Existe uma razão para algumas pessoas perceberem esse fenômeno com maior intensidade durante a estação de polinização. A exposição ao pólen pode aumentar temporariamente a atividade da resposta imunológica contra os alérgenos relacionados.

Uma pesquisa publicada em 1º de abril de 2026 na revista Allergy, liderada por Alla O. Litovkina e Maria G. Byazrova, investigou justamente essa relação entre a exposição sazonal ao pólen de bétula e a sensibilidade à maçã.

O trabalho mostrou que a exposição ao pólen de bétula estava associada ao aumento de IgE específica contra Mal d 1, o principal alérgeno da maçã relacionado à síndrome da alergia oral. Os pesquisadores também observaram aumento da sensibilidade clínica à fruta após a exposição sazonal ao pólen.

A pesquisa é particularmente interessante porque ajuda a explicar por que a reação a determinados alimentos pode variar conforme a época do ano. Ainda assim, o estudo analisou especificamente a relação entre pólen de bétula e maçã, não podendo ser usado para afirmar que toda coceira provocada por banana tenha a mesma origem.

Maçã e banana não são os únicos alimentos envolvidos

A síndrome pode ocorrer com diferentes alimentos, dependendo do tipo de pólen ao qual a pessoa é sensibilizada. Além da maçã, banana, pera, pêssego, cereja, melão, cenoura, aipo e algumas castanhas podem provocar sintomas em determinados indivíduos.

A reação também pode variar conforme o alimento é consumido. O cozimento pode alterar algumas proteínas responsáveis pela reação e fazer com que determinados alimentos sejam melhor tolerados.

Porém, isso não deve ser usado como teste caseiro. Se uma fruta provoca coceira recorrente na boca ou garganta, vale conversar com um alergista para diferenciar síndrome da alergia oral de uma alergia alimentar primária.

Coceira na garganta merece atenção

Embora a síndrome geralmente provoque manifestações leves, inchaço importante da língua ou garganta, dificuldade para respirar, tontura, queda de pressão ou sintomas em várias partes do corpo exigem atendimento médico imediato.

Também é importante não assumir que toda irritação depois de comer uma fruta seja alergia. Síndromes orais, alergias alimentares, irritações locais e outras condições podem apresentar sintomas semelhantes.

Um indício importante está na forma como os sintomas aparecem: se a coceira surge poucos minutos após consumir determinadas frutas cruas, especialmente em pessoas que também têm alergia ao pólen, pode existir uma relação com a síndrome da alergia oral.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn