Por que tomar a enzima lactase em comprimido não resolve o seu desconforto abdominal? 

Nem todo desconforto após o leite é lactose. (Foto: Shisuka via Canva)
Nem todo desconforto após o leite é lactose. (Foto: Shisuka via Canva)

Você toma um copo de leite ou come um pedaço de queijo e, pouco tempo depois, aparecem gases, inchaço ou desconforto abdominal. A suspeita surge quase automaticamente: intolerância à lactose. Em seguida, muitas pessoas recorrem às cápsulas de lactase ou aos produtos zero lactose na esperança de resolver o problema.

No entanto, existe um detalhe importante que costuma passar despercebido. Nem toda reação ao leite está relacionada à lactose. Em alguns casos, o verdadeiro vilão pode ser uma resposta do sistema imunológico contra as proteínas do leite.

Quando isso acontece, tomar lactase não faz diferença alguma, porque a enzima está tentando resolver um problema completamente diferente.

O açúcar do leite e as proteínas seguem caminhos distintos

A lactose é um carboidrato naturalmente encontrado no leite e em seus derivados. Para que ela seja absorvida pelo organismo, precisa ser quebrada pela enzima lactase, produzida naturalmente no intestino delgado.

Quando a produção dessa enzima diminui, a lactose não é digerida adequadamente. Ela chega ao intestino grosso, onde é fermentada pelas bactérias da microbiota intestinal.

O resultado costuma incluir:

  • Gases
  • Distensão abdominal
  • Cólicas
  • Diarreia
  • Sensação de estufamento

Nesses casos, o uso de lactase pode ser bastante eficaz porque atua diretamente sobre a causa do desconforto.

Quando o problema não é a lactose

A situação muda completamente quando existe alergia à proteína do leite de vaca.

Nesse cenário, o organismo reage contra proteínas como:

  • Caseína
  • Beta-lactoglobulina
  • Alfa-lactoalbumina

Em vez de um problema digestivo, ocorre uma resposta do sistema imunológico que pode envolver anticorpos do tipo IgE ou mecanismos mediados por células inflamatórias.

Uma revisão sistemática publicada em abril de 2026 na revista Diseases, liderada por Fabiola Menco Contreras, analisou as características clínicas, os métodos diagnósticos e as estratégias de tratamento da alergia à proteína do leite de vaca. O trabalho destaca que a condição pode causar manifestações digestivas, cutâneas e respiratórias, dependendo da intensidade e do tipo de resposta imunológica.

Por isso, eliminar apenas a lactose não resolve a situação. As proteínas continuam presentes e continuam sendo reconhecidas pelo sistema imunológico.

Por que tantas pessoas confundem as duas condições?

A confusão acontece porque alguns sintomas podem ser muito parecidos.

Tanto a intolerância quanto a alergia podem provocar:

  • Dor abdominal
  • Inchaço
  • Desconforto intestinal
  • Alterações nas evacuações

Entretanto, a alergia frequentemente apresenta sinais adicionais, como:

  • Coceira
  • Urticária
  • Vermelhidão na pele
  • Inchaço dos lábios
  • Sintomas respiratórios

Como os quadros podem se sobrepor, muitas pessoas passam meses tentando tratar uma suposta intolerância quando, na realidade, enfrentam outro problema.

Os exames ajudam a descobrir o verdadeiro culpado

A boa notícia é que existem exames capazes de diferenciar essas condições.

Para investigar a intolerância à lactose, um dos métodos mais utilizados é o teste de hidrogênio expirado.

Nesse exame, a pessoa ingere lactose e, posteriormente, é medida a quantidade de hidrogênio eliminada na respiração. Valores elevados sugerem que a lactose não foi adequadamente digerida e acabou sendo fermentada pelas bactérias intestinais.

Um estudo publicado em fevereiro de 2026, liderado por Luisella Vigna, comparou diferentes métodos diagnósticos para a má absorção de lactose e destacou o teste de hidrogênio expirado como uma das ferramentas não invasivas mais importantes para identificar a intolerância.

Já nos casos suspeitos de alergia, o médico pode solicitar exames de IgE específica, testes cutâneos e avaliação clínica especializada.

Tratar o problema certo faz toda a diferença

As cápsulas de lactase podem ser excelentes aliadas para quem realmente tem intolerância à lactose. O problema surge quando elas são utilizadas sem um diagnóstico adequado.

Se os sintomas persistem mesmo após o uso da enzima ou de produtos zero lactose, vale a pena investigar mais profundamente.

A ciência mostra que o leite pode provocar reações por mecanismos completamente diferentes. Entender essa diferença é fundamental para evitar tratamentos ineficazes e encontrar a estratégia correta para cada caso.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn