O que acontece no seu corpo se você deixar seu cachorro lamber uma ferida aberta

A saliva canina pode conter bactérias oportunistas. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
A saliva canina pode conter bactérias oportunistas. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Seu cachorro acabou de lamber um pequeno corte na sua mão e alguém logo comentou que isso ajudaria a cicatrizar mais rápido. Esse é um dos mitos mais antigos envolvendo os animais de estimação. Afinal, muita gente acredita que a boca dos cães é mais limpa que a dos humanos.

A realidade científica é bem diferente.

Embora os cães convivam perfeitamente com os microrganismos presentes em sua boca, algumas dessas bactérias podem representar um risco quando entram em contato com feridas abertas, arranhões ou pequenas fissuras na pele humana.

Na maioria das vezes nada acontece. Porém, em determinadas situações, uma simples lambida pode abrir caminho para infecções potencialmente graves.

Um universo microscópico escondido na boca dos cães

Assim como acontece com os seres humanos, os cães possuem uma rica microbiota oral, formada por centenas de espécies de bactérias que vivem naturalmente na cavidade bucal.

Entre elas estão microrganismos conhecidos pela medicina por sua capacidade de causar infecções em pessoas suscetíveis.

Duas das bactérias mais estudadas são:

  • Capnocytophaga canimorsus
  • Pasteurella multocida

Esses microrganismos normalmente convivem sem causar problemas aos animais. Entretanto, quando conseguem penetrar no organismo humano através de uma lesão na pele, a história pode mudar.

A bactéria silenciosa que preocupa os infectologistas

A Capnocytophaga canimorsus faz parte da flora oral normal de muitos cães e gatos.

Uma revisão publicada na revista Infectious Diseases and Therapy, liderada por Megan Hansen em 2019, descreveu que essa bactéria pode ser transmitida não apenas por mordidas, mas também por arranhões e pelo contato da saliva com áreas lesionadas da pele. Em situações raras, ela pode causar infecções invasivas, incluindo bacteremia, meningite e sepse.

Casos graves costumam ser mais frequentes em pessoas com imunidade comprometida, ausência do baço, doenças crônicas ou consumo excessivo de álcool. Contudo, infecções também já foram registradas em indivíduos previamente saudáveis.

Outra visitante comum: Pasteurella multocida

Outra bactéria frequentemente encontrada na boca dos animais domésticos é a Pasteurella multocida.

Uma revisão publicada na revista Pathogens em 2023 mostrou que essa bactéria pode ser transmitida por mordidas, arranhões e até mesmo pela lambida de animais sobre pele lesionada. Quando isso ocorre, podem surgir infecções de pele e tecidos moles, com vermelhidão, dor e inchaço. Em situações menos comuns, a infecção pode atingir estruturas mais profundas ou alcançar a corrente sanguínea.

Então devo me preocupar sempre?

Não.

É importante evitar alarmismo. Milhões de pessoas convivem diariamente com cães sem desenvolver qualquer infecção relacionada à saliva dos animais.

O problema surge quando existem fatores que facilitam a entrada das bactérias no organismo, como:

  • Feridas abertas
  • Cortes recentes
  • Arranhões
  • Úlceras na pele
  • Sistema imunológico enfraquecido

Nessas circunstâncias, permitir que o animal lamba a região lesionada não é uma boa ideia.

O que fazer se o cachorro lamber uma ferida?

A recomendação é simples:

  • Lave a região imediatamente com água e sabão.
  • Mantenha a ferida limpa e protegida.
  • Observe sinais como vermelhidão intensa, dor crescente, inchaço ou secreção.
  • Procure avaliação médica caso surjam sintomas suspeitos.

O carinho continua, mas com alguns limites

Os cães trazem inúmeros benefícios para a saúde física e emocional dos seus tutores. No entanto, carinho não precisa incluir lambidas em cortes ou feridas abertas.

A ciência mostra que a saliva canina abriga microrganismos que fazem parte da vida normal dos animais, mas que podem causar problemas quando encontram uma porta de entrada para o organismo humano.

Por isso, quando houver uma lesão na pele, o melhor é agradecer o carinho do pet e manter a ferida longe das lambidas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn