Por que dar bronca quando o filhote faz cocô no lugar errado pode fazer ele engolir as fezes depois?

Broncas podem dificultar o aprendizado do filhote. (Imagem: Fala Ciência)

Ensinar um filhote a fazer as necessidades no lugar certo exige paciência. No entanto, muitas pessoas ainda acreditam que dar bronca ou assustar o animal quando ele erra acelera o aprendizado. Na prática, pode acontecer exatamente o contrário. Em alguns cães, esse tipo de reação favorece comportamentos como esconder as fezes ou até desenvolver a coprofagia, que é o hábito de ingerir fezes.

Isso não significa que todo filhote castigado passará a apresentar esse comportamento. Porém, o medo da punição pode alterar a forma como ele reage às próprias eliminações, dificultando o treinamento e aumentando o estresse.

O filhote aprende por associação, não por culpa

Recompense o acerto em vez de punir o erro para um melhor aprendizado. (Imagem: Fala Ciência)

Os cães não compreendem que a bronca está relacionada ao local onde fizeram cocô. Em muitos casos, eles apenas associam a presença das fezes à reação negativa do tutor. Com o tempo, alguns tentam evitar essa situação eliminando rapidamente qualquer vestígio, o que pode incluir engolir as próprias fezes.

Esse comportamento também pode surgir por curiosidade, exploração do ambiente ou até durante uma fase normal do desenvolvimento. Entretanto, quando há punições frequentes, o medo tende a aumentar, tornando o aprendizado mais difícil.

Por esse motivo, especialistas em comportamento animal recomendam recompensar o filhote quando ele acerta o local das necessidades, em vez de castigá-lo pelos erros.

Estudo mostra a importância das primeiras experiências do filhote

Uma pesquisa publicada na revista científica Animal Behaviour, em julho de 2026, liderada por Emily E. Bray, investigou como os cuidados maternos e o ambiente nos primeiros meses influenciam o comportamento dos cães. O estudo mostrou que as experiências iniciais exercem influência duradoura sobre aspectos comportamentais e emocionais dos filhotes.

Embora o trabalho não tenha avaliado especificamente a coprofagia, seus resultados ajudam a compreender como vivências estressantes durante a fase inicial podem modificar a maneira como o filhote responde às situações do dia a dia, incluindo o processo de aprendizagem.

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Como ensinar sem aumentar o estresse

Durante o treinamento sanitário, o mais indicado é criar oportunidades para que o filhote acerte. Levar o cão ao local correto após as refeições, ao acordar e depois das brincadeiras aumenta as chances de sucesso.

Além disso, alguns cuidados fazem diferença:

  • Recompense imediatamente quando ele fizer cocô no lugar certo.
  • Remova as fezes rapidamente, evitando que permaneçam acessíveis.
  • Evite gritos, punições ou esfregar o focinho nas fezes.
  • Mantenha uma rotina previsível para facilitar o aprendizado.

Caso o comportamento de ingerir fezes apareça de forma persistente, o ideal é procurar um médico-veterinário. Em algumas situações, a coprofagia também pode estar relacionada a problemas nutricionais, doenças digestivas ou outras alterações que precisam ser investigadas.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes