Planta tradicional apresenta resultados promissores no controle de convulsões

Extrato de lírio mostra ação contra convulsões. (Foto: Pexels via Canva)
Extrato de lírio mostra ação contra convulsões. (Foto: Pexels via Canva)

 A ciência segue explorando caminhos inovadores para tratar doenças neurológicas e um deles vem de uma planta tradicional asiática que pode surpreender. Um estudo recente publicado na revista Nutrients, conduzido por Hee Ra Park e colaboradores em abril de 2026, revelou que um extrato natural pode atuar diretamente na organização das conexões cerebrais, ajudando a reduzir convulsões em modelo experimental.

Os resultados chamam atenção porque vão além do controle de sintomas: eles indicam uma possível atuação na base do problema neurológico.

O que acontece no cérebro durante uma convulsão?

A epilepsia está ligada a um desequilíbrio entre dois tipos de sinais no cérebro:

  • Excitatórios, que estimulam a atividade neuronal
  • Inibitórios, que reduzem essa atividade

Quando esse equilíbrio se rompe, ocorre uma hiperexcitabilidade neuronal, facilitando o surgimento de crises.

Nesse cenário, o estudo investigou se o extrato de uma planta poderia restaurar esse controle natural, especialmente por meio do sistema GABAérgico, responsável por “frear” o excesso de atividade cerebral.

O “lírio” estudado não é qualquer um

Bulbo de lírio pode reduzir hiperatividade cerebral. (Foto: Reprodução)
Bulbo de lírio pode reduzir hiperatividade cerebral. (Foto: Reprodução)

Aqui está um ponto essencial.

A pesquisa utilizou o Lilii bulbus, que corresponde ao bulbo de espécies específicas de lírio, como o Lilium lancifolium, amplamente usado na medicina tradicional asiática.

Isso não é o mesmo que o lírio ornamental comum.

  • Trata-se de uma parte específica da planta (o bulbo)
  • Preparada como extrato padronizado em laboratório
  • Utilizada em doses controladas

Além disso, algumas variedades de lírio podem ser tóxicas. Portanto, os efeitos observados no estudo não se aplicam ao uso direto da planta no dia a dia.

Resultados vão além do esperado

No experimento, camundongos foram submetidos a um modelo de convulsão induzida. Após o tratamento com o extrato, os efeitos foram claros:

  • Redução da gravidade das crises
  • Aumento do tempo até o início das convulsões
  • Diminuição da duração dos episódios

Além disso, análises cerebrais mostraram:

  • Menor hiperatividade neuronal
  • Redução de marcadores de excitação, como c-fos e CaMKII
  • Melhora na função dos neurônios inibitórios

Esses achados indicam um efeito anticonvulsivante robusto.

A chave está nas conexões cerebrais

Um dos pontos mais inovadores do estudo foi a análise das sinapses GABAérgicas, responsáveis por manter o equilíbrio da atividade cerebral.

O extrato de Lilii bulbus demonstrou:

  • Aumento de proteínas essenciais como gefirina e neuroligina-2
  • Recuperação da expressão de genes ligados ao sistema GABA
  • Preservação da estrutura das conexões neuronais

Na prática, isso sugere que o composto ajuda a reorganizar circuitos cerebrais, reduzindo a tendência a crises.

Compostos naturais com ação no cérebro

Os pesquisadores também destacaram substâncias presentes no extrato, como:

  • Ácido ferúlico
  • Ácido p-cumárico

Esses compostos têm propriedades conhecidas:

  • Ação antioxidante
  • Proteção neuronal
  • Modulação da atividade do GABA

Esse conjunto de efeitos pode explicar a atuação ampla observada no estudo.

Ainda não é um tratamento

Apesar dos resultados promissores, é importante manter cautela.

O estudo de Park et al., publicado na Nutrients em abril de 2026, foi realizado em animais. Portanto, ainda são necessários:

  • Estudos em humanos
  • Avaliações de segurança a longo prazo
  • Definição de doses seguras

Além disso, não está totalmente claro se o extrato previne a epilepsia ou apenas reduz a intensidade das crises.

Um novo caminho na neurologia?

Mesmo com essas limitações, os achados indicam algo relevante: a possibilidade de desenvolver terapias que atuem diretamente na estrutura e funcionamento das sinapses cerebrais.

Ao invés de apenas controlar sintomas, o Lilii bulbus pode representar um passo em direção a tratamentos mais precisos e baseados em mecanismos.

A ciência ainda está nos primeiros passos, mas o potencial já é suficiente para colocar essa planta no radar da neurologia moderna.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn