Pesquisa identifica as áreas agrícolas que mais prejudicam o clima e a biodiversidade 

Mapa destaca as áreas agrícolas que concentram os maiores impactos ambientais globais. (Imagem: Fala Ciência)

A produção agrícola foi essencial para o crescimento das sociedades humanas e continua sendo a base da segurança alimentar mundial. Contudo, a expansão das áreas cultivadas também provocou alterações significativas nos ambientes naturais. Atualmente, mais de 40% das terras habitáveis do planeta são utilizadas pela agricultura, o que faz dessa atividade um dos principais fatores associados às mudanças climáticas e à redução da biodiversidade. Um estudo recente, porém, revela que esses efeitos não ocorrem de maneira uniforme, mas se concentram em um número relativamente pequeno de áreas agrícolas.

Em vez de ocorrerem de maneira homogênea, os maiores danos ambientais se concentram em regiões específicas. Essa descoberta muda a forma de enxergar a conservação ambiental, pois demonstra que ações estratégicas em áreas prioritárias podem gerar benefícios muito maiores do que intervenções espalhadas de forma indiscriminada. Além disso, compreender onde os impactos são mais intensos ajuda governos, produtores e pesquisadores a desenvolver políticas mais eficientes para proteger a natureza sem comprometer a produção de alimentos.

Um mapa global revelou onde a agricultura mais afeta a natureza

Para entender a dimensão desse problema, pesquisadores reuniram informações sobre uso da terra, armazenamento natural de carbono, riqueza de espécies e os diferentes tipos de alimentos produzidos em todo o mundo. A combinação desses dados permitiu construir mapas detalhados capazes de identificar as regiões onde a agricultura exerce maior pressão sobre os ecossistemas.

Os resultados surpreenderam. Aproximadamente um terço das terras agrícolas concentra cerca de dois terços da perda global de biodiversidade e da redução do carbono armazenado na vegetação e no solo.

No estudo publicado na Nature Food, conduzido por Baoxiao Liu e colaboradores em 2026, os pesquisadores identificaram grandes áreas críticas distribuídas pelo Brasil, México, América Central, África Ocidental, Índia, China e Sudeste Asiático. Muitas dessas regiões abrigam florestas tropicais e outros ambientes extremamente ricos em espécies e carbono, tornando sua conversão para atividades agrícolas especialmente impactante.

A pecuária aparece entre as maiores responsáveis pelos impactos

A análise também mostrou quais cadeias de produção de alimentos geram os maiores impactos sobre o meio ambiente. Os resultados indicam que os produtos de origem pecuária, com destaque para a carne bovina e o leite, estão entre os que mais contribuem para a perda de biodiversidade e de carbono armazenado nos ecossistemas. De acordo com os resultados do estudo, esses dois produtos, quando considerados em conjunto, são responsáveis por:

  • 41% das perdas globais de biodiversidade associadas à produção de alimentos.
  • 29% da redução do armazenamento natural de carbono relacionada à atividade agrícola.

Esse impacto ocorre porque a criação de bovinos exige grandes áreas destinadas tanto às pastagens quanto ao cultivo de ração animal, ampliando o desmatamento e reduzindo habitats naturais.

Pequenas mudanças podem produzir benefícios expressivos

Um dos aspectos mais relevantes do estudo é mostrar que a solução também pode estar concentrada em poucas regiões. Como os impactos ambientais se acumulam em áreas específicas, medidas direcionadas possuem elevado potencial para reduzir simultaneamente os efeitos sobre o clima e sobre a biodiversidade. Entre as principais estratégias destacam-se:

  • adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis;
  • proteção de ecossistemas ambientalmente sensíveis;
  • recuperação de áreas degradadas;
  • uso mais eficiente das terras agrícolas;
  • redução da necessidade de expansão sobre ambientes naturais.

Essas iniciativas permitem aumentar a produção de alimentos de maneira mais equilibrada, preservando serviços ecossistêmicos essenciais, como o armazenamento de carbono, a regulação do clima, a proteção dos recursos hídricos e a manutenção da biodiversidade.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes