Pela primeira vez, astrônomos localizam ondas de rádio diretamente em um exoplaneta 

Hubble revela o enorme disco de poeira que envolve Beta Pictoris. (Imagem: NASA, ESA e D. Apai e G. Schneider (Universidade do Arizona))

Um planeta localizado a cerca de 64 anos-luz da Terra acaba de enviar um sinal que pode mudar a maneira como os astrônomos estudam mundos fora do Sistema Solar. Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram localizar diretamente uma emissão de rádio em um exoplaneta, em vez de apenas detectar um sinal vindo de seu sistema.

O protagonista da descoberta é β Pictoris b, um enorme planeta gasoso que orbita uma estrela jovem. Mais do que registrar uma emissão distante, os cientistas conseguiram usar essas ondas para investigar uma característica invisível do planeta: seu campo magnético.

O desafio estava em descobrir de onde vinha o sinal

Ondas de rádio já haviam sido observadas em sistemas que possuem exoplanetas. O problema era determinar sua origem com precisão. Como a estrela e seus planetas ficam muito próximos quando vistos da Terra, não era possível descartar que a própria estrela estivesse produzindo a emissão.

Para resolver essa dificuldade, a equipe utilizou o MeerKAT, conjunto de radiotelescópios localizado na África do Sul. Durante as observações, foram identificadas rajadas rápidas e recorrentes de rádio, além de uma emissão mais persistente.

Em seguida, os pesquisadores recorreram a uma espécie de mapa cósmico. Quasares extremamente distantes foram usados como pontos de referência praticamente fixos no céu. Com essa técnica, foi possível determinar com maior precisão a posição da estrela e de β Pictoris b.

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O resultado foi decisivo: a emissão estava alinhada com o planeta, e não com sua estrela hospedeira.

Uma aurora invisível revelou a força magnética

Quatro sessões registraram sinais de rádio de β Pictoris b. (Imagem: arXiv (2026))

O sinal não indica uma transmissão artificial ou uma tentativa de comunicação extraterrestre. A explicação científica está ligada a um fenômeno natural conhecido como emissão de rádio auroral.

Em um planeta com campo magnético, partículas eletricamente carregadas podem ser conduzidas ao longo das linhas magnéticas. Sob determinadas condições, essa interação gera ondas de rádio. Na Terra, processos relacionados às partículas solares produzem as conhecidas auroras polares, embora o mecanismo observado no exoplaneta envolva condições diferentes.

Os pesquisadores identificaram a emissão como resultado da chamada instabilidade do maser ciclotrônico de elétrons. Esse processo permite relacionar a frequência máxima das ondas detectadas à intensidade do campo magnético existente na região onde a radiação é produzida.

A estimativa indica um campo de pelo menos 1.250 gauss em β Pictoris b.

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O planeta acaba funcionando como um laboratório cósmico

A descoberta vai além de simplesmente detectar ondas de rádio. O magnetismo de um planeta influencia processos importantes, incluindo sua interação com o vento estelar e a maneira como partículas energéticas afetam sua atmosfera.

Além disso, medir diretamente esse campo fornece uma ferramenta para investigar o interior e a evolução de planetas gigantes jovens.

O estudo foi liderado por Kevin N. Ortiz Ceballos, com Edo Berger e Yvette Cendes, e disponibilizado no arXiv em 15 de setembro de 2026. O trabalho apresenta a primeira detecção direta de emissão de rádio auroral atribuída a um exoplaneta e estima um campo magnético de pelo menos 1,25 quilogauss. Como o trabalho ainda é um preprint, seus resultados aguardam o processo de revisão por pares.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes