Explosões de estrelas revelam a força invisível que mantém galáxias em movimento 

Mosaico do Hubble revela milhões de estrelas na galáxia M31. (Imagem: NASA, ESA, J. Dalcanton, BF Williams e LC Johnson (Universidade de Washington), a equipe PHAT e R. Gendler)

Uma galáxia pode parecer tranquila quando observada de longe, mas seu interior está longe de ser estático. Nuvens de gás se deslocam, estruturas se deformam e enormes regiões são continuamente agitadas. Agora, uma investigação em Andrômeda, a grande galáxia espiral mais próxima da Via Láctea, encontrou evidências de que uma das principais fontes dessa movimentação pode estar nas explosões de estrelas.

A descoberta ajuda a explicar um dos fenômenos fundamentais para entender como as galáxias se comportam e evoluem: a turbulência galáctica.

Explosões estelares deixam enormes bolhas no gás

Superbolhas formadas por supernovas na galáxia de Andrômeda. (Imagem: Fala Ciência)

Quando estrelas muito massivas chegam ao fim de suas vidas, podem explodir como supernovas. A energia liberada nesse processo não desaparece simplesmente. Parte dela é transferida para o gás ao redor, criando ondas de choque e movimentando grandes volumes de matéria.

Esse processo pode formar estruturas conhecidas como superbolhas, enormes regiões de gás que se expandem dentro do disco galáctico.

Por isso, os pesquisadores procuraram essas estruturas em M31, a galáxia de Andrômeda, utilizando observações de rádio capazes de revelar o hidrogênio neutro presente no seu disco.

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O levantamento identificou 118 superbolhas distribuídas pela galáxia. Algumas apresentam idades dinâmicas de até 40 milhões de anos, uma escala de tempo compatível com a atividade de supernovas produzidas por grupos de estrelas.

Um mapa da energia escondida em Andrômeda

O aspecto mais interessante surgiu quando os pesquisadores calcularam quanta energia cinética poderia estar sendo injetada no meio interestelar por essas estruturas.

Os valores encontrados ficaram entre aproximadamente 10⁴⁹ e 10⁵¹,⁵ erg por quiloparsec cúbico por milhão de anos. Mais importante do que o número isolado foi sua correspondência com a energia que, segundo estimativas independentes, é perdida pela turbulência no gás da própria galáxia.

Na prática, isso significa que as supernovas agrupadas podem fornecer energia suficiente para compensar a dissipação causada pela turbulência.

Além disso, a distribuição espacial das duas medidas apresentou uma correspondência semelhante. Assim, não se trata apenas de encontrar energia suficiente, mas também de observar uma relação entre onde as superbolhas aparecem e onde a turbulência está presente.

A turbulência ajuda a moldar uma galáxia

O resultado é importante porque a turbulência não representa apenas um movimento aleatório do gás. Ela influencia diretamente a estrutura do disco galáctico, interfere na distribuição da matéria e participa de processos ligados à formação e evolução das estrelas.

Portanto, entender sua origem ajuda os astrônomos a compreender melhor como uma galáxia muda ao longo de milhões ou bilhões de anos.

O estudo também mostra por que observar o hidrogênio neutro é tão importante. Esse componente funciona como uma espécie de mapa do gás interestelar, permitindo identificar estruturas que seriam difíceis de perceber apenas com observações ópticas.

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O estudo publicado na Nature Astronomy

A pesquisa foi publicada em 17 de setembro de 2026 na revista Nature Astronomy. O primeiro autor é Fanyi Meng, e o trabalho analisou dados combinados do Five-Hundred-Meter Aperture Spherical Radio Telescope (FAST) e do Jansky Very Large Array (VLA) para investigar o disco de Andrômeda.

Os resultados indicam que o feedback produzido por supernovas é suficiente para sustentar a turbulência em escala galáctica. Dessa forma, as explosões de estrelas podem ter um papel ainda mais importante na dinâmica das galáxias do que simplesmente marcar o fim de estrelas massivas.

No caso de Andrômeda, a aparente tranquilidade observada no céu esconde um ambiente em constante transformação, alimentado por algumas das explosões mais energéticas do Universo.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes