Os corvos conseguem decidir quando emitir sons? A ciência investigou essa habilidade

Corvos demonstram controle voluntário e exigências cognitivas específicas ao vocalizar (Imagem: Getty images)

Produzir um som pode parecer uma ação simples, mas controlar o momento exato de vocalizar exige muito mais do que emitir um ruído. É necessário interpretar estímulos, selecionar uma resposta e coordenar diferentes movimentos. Nos seres humanos, essas capacidades participam da comunicação e da fala. Entretanto, uma pesquisa com corvos revelou que essas aves também apresentam um controle voluntário impressionante sobre a própria voz.

O mais curioso é que vocalizar parece exigir um esforço cognitivo diferente daquele necessário para executar movimentos simples, como bicar um objeto. Essa diferença oferece novas pistas sobre a inteligência das aves e a evolução do controle vocal entre os animais.

Quando o corvo precisa escolher entre falar e agir

Os corvos pertencem à família Corvidae, grupo que reúne aves conhecidas por suas habilidades cognitivas. Além de resolver problemas, utilizar ferramentas e demonstrar capacidade de planejamento, algumas espécies conseguem controlar voluntariamente suas vocalizações.

Isso significa que elas não produzem sons apenas como respostas automáticas a estímulos ambientais. Também conseguem vocalizar ou permanecer em silêncio dependendo de determinadas condições.

Para investigar essa habilidade, pesquisadores treinaram dois corvos-pretos (Corvus corone) para executar duas ações diferentes diante de sinais apresentados em uma tela sensível ao toque: emitir uma vocalização ou realizar uma bicada.

Cada resposta estava associada a um estímulo visual específico. Quando os animais executavam corretamente a tarefa, recebiam uma recompensa alimentar. O experimento foi organizado em três modalidades:

  • Aleatória: os sinais para vocalizar e bicar apareciam sem uma ordem previsível.
  • Alternada: os animais precisavam trocar constantemente entre os dois tipos de resposta.
  • Em blocos: os corvos repetiam uma mesma ação dez vezes antes de mudar para a outra.

Dessa maneira, os cientistas conseguiram avaliar como a frequência das mudanças influenciava o desempenho das aves.

Por que vocalizar pode exigir mais esforço cerebral?

Corvos possuem controle vocal voluntário, revelando alta complexidade cognitiva e esforço cerebral (Imagem: Getty images)

O estudo foi publicado em 2026 na revista científica Proceedings of the Royal Society B, com o título Switch costs reveal vocalization-specific executive demands during flexible action selection in crows, liderado por Diana A. Liao, em colaboração com Félix Kürble e Andreas Nieder.

Os resultados mostraram que os corvos conseguiam executar as duas tarefas com elevada precisão. Entretanto, existia uma diferença importante: as vocalizações eram geralmente mais lentas e apresentavam maior variabilidade do que as bicadas.

A descoberta mais interessante apareceu quando os animais precisavam mudar de uma modalidade de resposta para outra.

Os pesquisadores identificaram os chamados custos de alternância, que representam a perda temporária de desempenho quando o cérebro precisa abandonar uma tarefa e preparar outra.

Quando os corvos precisavam passar de uma bicada para uma vocalização, por exemplo, o tempo de reação aumentava e alguns erros aconteciam. Em contrapartida, as bicadas permaneciam praticamente inalteradas após mudanças entre as tarefas.

Esse resultado indica que a preparação de uma resposta vocal apresenta exigências específicas de controle executivo.

O que os corvos podem ensinar sobre a evolução da fala?

O controle executivo envolve processos cognitivos responsáveis por organizar comportamentos, selecionar respostas, inibir ações inadequadas e adaptar decisões conforme as circunstâncias.

Nos seres humanos, essas funções participam de atividades como conversar, planejar movimentos e mudar rapidamente de uma tarefa para outra.

Embora a vocalização dos corvos não seja equivalente à fala humana, a capacidade de controlar voluntariamente a produção de sons apresenta um interesse especial para a neurociência comparativa.

Isso porque aves e mamíferos possuem histórias evolutivas distintas, mas desenvolveram capacidades complexas de comunicação e controle comportamental.

O experimento, realizado com apenas dois corvos-pretos, não permite generalizar os resultados para todas as aves. Ainda assim, demonstra que essas aves conseguem alternar deliberadamente entre diferentes modalidades de ação, apresentando uma demanda executiva particularmente evidente durante a produção vocal.

A voz dos corvos, portanto, não é apenas uma ferramenta de comunicação. Ela também oferece uma oportunidade para investigar como o cérebro seleciona, prepara e executa ações voluntárias.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes