As florestas fazem muito mais do que retirar gás carbônico da atmosfera. Elas também funcionam como gigantescos sistemas naturais de climatização, capazes de controlar parte do calor que chega à superfície terrestre. Suas árvores liberam água para a atmosfera, oferecem sombra e alteram a maneira como a energia solar é absorvida e distribuída pelo ambiente.
Agora, uma investigação global revelou que a capacidade das florestas de regular a temperatura da superfície terrestre aumentou significativamente nas últimas duas décadas. O resultado também apresenta uma conexão interessante: essa regulação térmica está associada à capacidade dos ecossistemas de manter a fotossíntese diante de temperaturas elevadas.
Como as árvores conseguem resfriar o ambiente?
Uma floresta não funciona como uma superfície comum exposta ao Sol. Enquanto áreas desmatadas ou cobertas por concreto podem acumular bastante calor, a vegetação utiliza diferentes mecanismos para controlar sua temperatura.
Um dos principais é a transpiração vegetal. Nesse processo, as plantas liberam vapor de água por pequenas estruturas presentes nas folhas, chamadas estômatos.
A evaporação da água consome energia térmica, contribuindo para resfriar as folhas e o ambiente próximo. Esse mecanismo faz parte da evapotranspiração, que reúne a transpiração das plantas e a evaporação da água presente no solo e em outras superfícies.
Além disso, as copas das árvores interceptam parte da radiação solar, proporcionando sombra e diminuindo o aquecimento do solo.
Portanto, uma floresta saudável participa ativamente da distribuição de energia e água entre a superfície terrestre e a atmosfera.
Satélites revelaram uma mudança na capacidade de resfriamento
Para investigar como essa capacidade mudou ao longo do tempo, os pesquisadores analisaram observações globais de temperatura obtidas por satélites durante 20 anos, entre 2001 e 2020.
O estudo foi publicado em 2026 na revista científica Nature Plants, com liderança de Ruo Chen Cao. A investigação avaliou a chamada capacidade de regulação térmica (CRT) das florestas, considerando a relação entre a temperatura da superfície terrestre e a temperatura do ar.
Os resultados indicaram um fortalecimento significativo dessa capacidade em diferentes regiões florestais do planeta.
Entre os fatores associados a essa mudança estão o aumento da cobertura de árvores e as tendências de aquecimento. Em outras palavras, as florestas apresentaram maior capacidade de moderar a temperatura superficial mesmo em um cenário de elevação das temperaturas.
Entretanto, existe outro aspecto importante: nem todas as florestas apresentam a mesma eficiência térmica.
A diversidade de árvores pode fazer diferença
As análises também identificaram que florestas com maior riqueza de espécies apresentam, em geral, uma capacidade superior de regulação térmica.
Uma possível explicação está na maneira como diferentes espécies utilizam e liberam água. Ecossistemas mais diversificados podem apresentar características complementares, favorecendo a transpiração e a evapotranspiração.
Isso significa que a diversidade biológica não representa apenas uma riqueza de formas de vida. Ela também pode contribuir para o funcionamento climático das florestas.
Espécies diferentes possuem características próprias de folhas, raízes, tamanho e controle da perda de água. Quando coexistem, essas diferenças podem favorecer o aproveitamento dos recursos disponíveis.
O resfriamento também ajuda a proteger a fotossíntese
A descoberta ganha ainda mais importância quando consideramos a fotossíntese, processo pelo qual plantas utilizam a energia luminosa para produzir compostos orgânicos a partir de água e dióxido de carbono.
Esse mecanismo depende de condições ambientais adequadas. Quando a temperatura ultrapassa determinados limites, enzimas e outras estruturas envolvidas na atividade fotossintética podem funcionar de maneira menos eficiente.
Por isso, o calor excessivo pode comprometer a capacidade das plantas de absorver carbono da atmosfera.
O estudo identificou que as variações na regulação térmica das florestas estão associadas à temperatura ideal para a fotossíntese e à resistência desse processo ao estresse térmico.
Na prática, isso indica uma conexão importante entre o funcionamento climático das florestas e sua capacidade de continuar realizando fotossíntese em condições de aquecimento.
A conservação e a restauração de florestas diversificadas, portanto, são fundamentais não apenas para proteger a biodiversidade, mas também para preservar mecanismos naturais de resfriamento e absorção de carbono em um planeta cada vez mais quente.
