O que acontece no cérebro do gato quando ele entra em contato com a famosa “erva do gato”?

Nepetalactona ativa o cérebro emocional dos gatos. (Foto: Getty Images via Canva)
Nepetalactona ativa o cérebro emocional dos gatos. (Foto: Getty Images via Canva)

Basta um pequeno punhado de folhas secas de erva do gato (catnip) para transformar um felino tranquilo em um verdadeiro “explorador caótico”. Em poucos segundos, o gato pode rolar no chão, esfregar o rosto, salivar, correr sem direção ou tentar caçar estímulos invisíveis. Embora pareça magia, a explicação está em uma molécula específica que interage diretamente com o sistema nervoso do animal.

A molécula que “conversa” com o cérebro felino

O principal composto ativo da erva do gato é a nepetalactona, uma substância volátil presente nas folhas e caules da planta. Quando liberada no ambiente, ela é detectada pelas vias olfativas do gato e entra em contato com o epitélio olfatório, região responsável por capturar estímulos químicos do ar.

A partir daí, inicia-se uma sequência neurobiológica precisa:

  • Ativação dos receptores olfativos específicos
  • Envio de sinais ao bulbo olfatório
  • Projeção para regiões cerebrais como amígdala e hipotálamo
  • Integração com circuitos emocionais e comportamentais

Essas áreas estão diretamente ligadas a instintos, recompensa e respostas emocionais.

O cérebro entra em estado de “euforia comportamental”

O efeito da nepetalactona não é apenas olfativo. Ela desencadeia uma resposta neurológica que pode ser descrita como um estado de hiperestimulação comportamental temporária.

O que se observa no gato inclui:

  • aumento de atividade motora
  • comportamentos de caça simulada
  • rolar e esfregar o corpo
  • vocalizações e excitação
  • episódios curtos de euforia seguidos de relaxamento

Esse padrão sugere ativação simultânea de circuitos de recompensa e de comportamento instintivo.

Feromônios falsos

A nepetalactona atua de forma interessante: ela não “imita exatamente” um hormônio sexual, mas ativa receptores que estão ligados à percepção de feromônios felinos.

Isso significa que o cérebro do gato interpreta o estímulo como algo biologicamente relevante, possivelmente associado a:

  • comunicação social
  • marcadores territoriais
  • estímulos sexuais ou de interação

Em outras palavras, o sistema nervoso responde como se estivesse diante de um sinal altamente importante, mesmo que ele venha de uma planta.

Nem todos os gatos reagem à erva do gato

Um detalhe importante é que a resposta à catnip não é universal. Estudos de comportamento felino mostram que aproximadamente:

  • 50% a 70% dos gatos domésticos reagem à nepetalactona
  • a sensibilidade é genética e hereditária
  • filhotes geralmente não respondem antes da maturidade sexual

Isso reforça a ideia de que o efeito está ligado a circuitos neurológicos específicos e não apenas ao olfato em si.

Do ponto de vista neurocientífico, a erva do gato não “altera a consciência” do animal, mas sim ativa redes cerebrais profundamente ligadas ao instinto. A interação entre olfato, amígdala e hipotálamo cria uma cascata de respostas que simula situações naturais importantes para o comportamento felino.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn