O que a abelha rainha faz com pesticidas pode explicar o colapso de colmeias 

Abelha rainha passa pesticidas aos ovos e pode colocar toda a colmeia em risco. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Quando pensamos em pesticidas afetando abelhas, a imagem mais comum é a de operárias morrendo após contato com substâncias tóxicas no campo. No entanto, um novo estudo mostra que o problema pode ser ainda mais profundo e silencioso. A abelha rainha, peça central da colmeia, pode transferir pesticidas diretamente para os ovos como forma de se livrar da contaminação. O mecanismo funciona como uma espécie de defesa biológica, mas cobra um preço alto: o desenvolvimento da próxima geração pode ser comprometido.

A descoberta foi descrita em Current Biology, em estudo liderado por Angela Encerrado-Manriquez e publicado em 2026. O trabalho lança luz sobre um ponto pouco explorado na toxicologia das abelhas: o que acontece quando a própria rainha é exposta de forma contínua a contaminantes e como isso pode afetar o equilíbrio de toda a colônia.

Uma defesa da rainha que pode sair caro para a colmeia

A rainha vive cercada por operárias, que a alimentam, limpam e ajudam a proteger a colônia. Esse sistema também funciona como uma primeira barreira contra toxinas. Em condições normais, as operárias conseguem filtrar parte dos contaminantes presentes no alimento antes que eles cheguem à rainha. Porém, o estudo mostra que essa proteção não é ilimitada.

Quando a exposição ao pesticida se prolonga, a capacidade de filtragem das operárias começa a cair. Nesse cenário, a rainha passa a acumular parte dessas substâncias no corpo. A saída encontrada por ela é surpreendente: transferir a carga tóxica para os ovos, em um processo chamado de transferência materna.

Do ponto de vista da rainha, isso pode representar uma estratégia de sobrevivência. Porém, para a colmeia, o efeito pode ser perigoso. Afinal, os ovos contaminados podem ter seu desenvolvimento alterado, o que compromete a reposição de indivíduos e enfraquece a estrutura social da colônia ao longo do tempo.

O experimento que revelou o problema

Para entender esse processo, os pesquisadores montaram nanocolônias, pequenas estruturas experimentais que simulam o funcionamento de uma colmeia. Cada unidade continha uma rainha e 60 operárias, todas alimentadas com comida contaminada por metil paration, um pesticida organofosforado.

Além disso, os cientistas usaram um marcador radioativo de baixa intensidade para rastrear o caminho do contaminante dentro da colônia. O resultado mostrou um padrão importante:

  • No primeiro dia, as operárias filtraram cerca de 95% do pesticida
  • No décimo dia, essa filtragem caiu para 86%
  • Com isso, mais contaminante alcançou a rainha e os ovos

Ou seja, mesmo quando a dose não é letal, a exposição contínua pode gerar acúmulo progressivo, abrindo espaço para danos tardios.

Por que isso preocupa tanto os cientistas

O ponto mais delicado do estudo é que os efeitos não aparecem necessariamente de forma imediata. Em vez de causar uma mortalidade súbita, o pesticida pode desorganizar a colmeia aos poucos, afetando justamente seu núcleo reprodutivo.

Isso importa porque a rainha é responsável por colocar 1.500 a 2.000 ovos por dia em colônias saudáveis. Se parte desses ovos recebe contaminantes, a consequência pode ser uma queda silenciosa na qualidade da prole. Com o tempo, isso pode favorecer um colapso tardio da colmeia, especialmente quando somado a outros estresses já conhecidos, como perda de habitat, parasitas, escassez de flores e mudanças climáticas.

Além disso, o estudo amplia a forma como devemos enxergar o problema. Durante muito tempo, a maior parte das pesquisas sobre pesticidas em abelhas concentrou o foco nas operárias adultas. Agora, fica claro que avaliar apenas as abelhas que forrageiam não basta. É preciso observar também a rainha, os ovários e os ovos, porque o impacto pode estar sendo transmitido de geração em geração dentro da própria colônia.

O que essa descoberta muda na prática

A pesquisa não significa que toda colmeia exposta a pesticidas entrará em colapso. No entanto, ela mostra que existe um mecanismo oculto de contaminação que pode passar despercebido em análises superficiais. Para apicultores, produtores rurais e programas de manejo integrado de pragas, isso é um alerta importante. Entre os principais recados do estudo, destacam-se:

  • a exposição crônica pode ser mais perigosa do que parece
  • a rainha não está isolada da contaminação
  • os ovos podem funcionar como destino final de parte dos pesticidas
  • os efeitos na colmeia podem surgir de forma lenta e acumulativa

Em um cenário em que as abelhas polinizam cerca de um terço das culturas alimentares do mundo, entender esses mecanismos deixa de ser apenas curiosidade científica. Trata-se de uma questão ligada à produção de alimentos, biodiversidade e estabilidade dos ecossistemas.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes