Cada vez mais noturnos: como o calor está alterando o relógio dos animais 

Com o calor extremo, alguns animais estão trocando o dia pela noite para sobreviver. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

O aquecimento do planeta não está mudando apenas o mapa das secas, das chuvas e das ondas de calor. Em muitos casos, ele está alterando algo ainda mais básico: o horário de vida dos animais. Espécies que costumavam concentrar suas atividades durante o dia estão passando a se mover, caçar, procurar alimento ou simplesmente circular mais à noite, quando o ambiente oferece temperaturas menos agressivas.

À primeira vista, essa mudança pode parecer um simples ajuste de rotina. No entanto, do ponto de vista biológico, trata-se de uma resposta profunda ao estresse térmico. Quando o calor ultrapassa certos limites, permanecer ativo sob o sol pode elevar o gasto de água, aumentar o risco de superaquecimento e comprometer funções essenciais do organismo. Em outras palavras, para muitos animais, trocar o dia pela noite pode ser uma estratégia de sobrevivência.

Quando o calor muda o relógio da natureza

Todo animal precisa equilibrar energia, hidratação, temperatura corporal e acesso a alimento. Em um cenário de calor extremo, esse equilíbrio fica ameaçado. Se o ambiente está quente demais durante o dia, a atividade passa a custar mais caro fisiologicamente. O corpo perde mais água, a dissipação de calor fica mais difícil e o risco de exaustão aumenta.

É nesse contexto que a noite se torna uma janela mais segura. Com temperaturas mais baixas, o animal consegue se locomover, forragear ou buscar parceiros com menor custo térmico. Esse comportamento já era conhecido em regiões desérticas e semiáridas, mas agora vem ganhando importância em áreas onde o aquecimento global está ampliando a frequência e a intensidade dos extremos de calor. Na prática, a mudança pode envolver diferentes ajustes:

  • redução da atividade nas horas mais quentes do dia;
  • aumento da movimentação ao entardecer, à noite ou antes do amanhecer;
  • uso mais intenso de sombra, tocas e microambientes frescos;
  • alteração do horário de alimentação para evitar sobrecarga térmica.

Virar noturno pode salvar, mas também cobra um preço

Embora pareça uma solução eficiente, mudar o horário de atividade não é algo neutro. O período noturno tem sua própria dinâmica ecológica. A luz é menor, a visibilidade muda, a competição pode ser diferente e os predadores não são os mesmos. Portanto, um animal diurno que passa a usar mais a noite não está apenas fugindo do calor. Ele também entra em um “turno” ecológico novo, com desafios distintos.

Essa mudança pode afetar alimentação, reprodução, vigilância contra predadores e até a interação com outras espécies. Além disso, nem todos os animais têm a mesma flexibilidade comportamental. Alguns conseguem ajustar horários com relativa facilidade; outros dependem de pistas ambientais, de hábitos sociais ou de uma fisiologia menos adaptável.

O que a ciência observou em 2026

Um exemplo recente dessa relação entre temperatura e atividade veio de um estudo publicado em 6 de abril de 2026 na revista Oecologia, liderado por J. R. D. Whyte. A pesquisa analisou como uma ave de região árida modifica seu comportamento diante do calor e mostrou que as respostas não dependem apenas da temperatura, mas também do estado de hidratação e de fatores sociais. Em outras palavras, o calor não age sozinho: ele interage com a disponibilidade de água, com o contexto ecológico e com os limites fisiológicos do animal. 

Embora o trabalho tenha focado uma ave de ambiente seco, a lógica ecológica é ampla e ajuda a entender por que tantas espécies podem estar deslocando parte de suas atividades para horários mais amenos. O ponto central é simples: quanto maior o custo de viver no calor, maior a pressão para reorganizar a rotina.

A noite pode virar refúgio em um planeta mais quente

À medida que o clima esquenta, a tendência é que esses ajustes comportamentais se tornem mais frequentes. E isso importa porque o horário em que um animal vive influencia toda a teia ecológica ao seu redor. Se uma espécie muda seu pico de atividade, ela altera encontros com predadores, presas, competidores e plantas das quais depende.

Por isso, quando alguns animais “viram criaturas da noite”, não estamos vendo apenas uma curiosidade do comportamento. Estamos observando um sinal de adaptação ao calor e, ao mesmo tempo, um alerta sobre o quanto as mudanças climáticas já estão penetrando no cotidiano da fauna. Em muitos casos, sobreviver ao novo clima pode começar com uma decisão silenciosa: esperar o sol ir embora para então sair de cena.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes