O erro de higienização do filtro do ar que ativa crises de rinite no meio do trabalho

Filtro sujo pode comprometer a qualidade do ar no escritório. (Imagem: Fala Ciência)

Sentar para trabalhar e, algumas horas depois, começar a espirrar, coçar o nariz e sentir a respiração mais pesada parece uma coincidência. Porém, o próprio ar-condicionado do escritório pode estar participando desse cenário, especialmente quando a higienização do equipamento é feita de maneira incompleta.

O problema não está necessariamente no aparelho em si. A questão é como o filtro e as partes internas são mantidos. Quando há acúmulo de poeira, umidade e material orgânico, o sistema pode deixar de funcionar apenas como um aliado contra partículas suspensas e passar a contribuir para uma piora da qualidade do ar.

A armadilha de lavar somente o filtro

Um dos erros mais comuns é retirar a tela filtrante, lavar, recolocar e considerar o serviço encerrado. O filtro é apenas uma das partes do sistema de climatização.

Dependendo do aparelho, poeira e umidade também podem se acumular em componentes internos, como serpentinas, bandejas de drenagem e turbinas. Se essas áreas permanecem contaminadas, a limpeza superficial do filtro não resolve necessariamente o problema.

Além disso, um filtro muito carregado de partículas pode comprometer a passagem adequada do ar. E existe outro detalhe importante: não basta limpar o filtro, é preciso secá-lo completamente antes de recolocá-lo, seguindo as orientações do fabricante.

A presença de umidade persistente é especialmente indesejável porque cria condições favoráveis para o crescimento de microrganismos.

Ar frio vira gatilho para o nariz

Ar frio do escritório agrava sintomas de rinite alérgica. (Imagem: Fala Ciência)

A rinite alérgica ocorre quando o sistema imunológico reage de maneira exagerada a determinados alérgenos, como ácaros, fungos e pólen. Em pessoas sensibilizadas, partículas presentes no ambiente podem desencadear uma sequência de sintomas.

Os sinais mais comuns incluem:

  • espirros repetidos;
  • coceira no nariz e nos olhos;
  • coriza;
  • congestão nasal;
  • sensação de nariz entupido;
  • secreção nasal clara.

No ambiente de trabalho, existe ainda um agravante: a pessoa pode permanecer várias horas exposta à mesma fonte ambiental. Assim, se os sintomas aparecem repetidamente no escritório e melhoram depois de sair dele, vale observar a qualidade do ar e as condições de manutenção do sistema de climatização.

Pesquisa encontrou conexões entre ventilação, limpeza e alergias

Uma pesquisa publicada em 4 de maio de 2026 no Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology, liderada por Zhiniping Zhou, avaliou 9.086 crianças em idade pré-escolar em Wuhan, na China. O trabalho investigou justamente a relação entre ventilação, uso de aparelhos, hábitos de limpeza e doenças alérgicas, incluindo rinite alérgica.

Os pesquisadores observaram que a frequência de limpeza dos ambientes esteve associada a menores chances de rinite alérgica, enquanto o uso de aparelhos de ar-condicionado apresentou associação com maior probabilidade da condição. No entanto, os próprios autores destacaram que o estudo é transversal e não permite afirmar que o ar-condicionado cause rinite.

Esse detalhe é importante. O resultado não significa que o aparelho seja prejudicial por natureza. Ele mostra que o conjunto de fatores presentes no ambiente interno pode ter relação com doenças alérgicas.

A manutenção precisa ir além da tela

Para reduzir a exposição a partículas e preservar a qualidade do ar, alguns cuidados são especialmente importantes:

  • limpar o filtro na frequência indicada pelo fabricante;
  • garantir que o filtro esteja totalmente seco antes da instalação;
  • verificar sinais de mofo, umidade ou odor desagradável;
  • realizar manutenção periódica das partes internas;
  • evitar improvisar produtos químicos dentro do aparelho;
  • manter o ambiente limpo para reduzir a quantidade de poeira que chega ao sistema.

Portanto, se a rinite aparece repetidamente durante o expediente, não vale olhar apenas para medicamentos ou para o clima externo. O ambiente onde você passa horas também merece atenção.

Vale destacar que quando a crise começa pouco depois de ligar o ar-condicionado e melhora após algumas horas longe dele, a manutenção do equipamento pode ser um dos pontos que precisam ser investigados.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn