O chá natural que quase todo mundo tem em casa, mas que pode cortar o efeito do seu anticoncepcional

Hipérico pode reduzir a eficácia do anticoncepcional. (Foto: Fala Ciência via Canva)
Hipérico pode reduzir a eficácia do anticoncepcional. (Foto: Fala Ciência via Canva)

Tomar um chá natural parece uma escolha inofensiva. Afinal, muitas pessoas associam produtos de origem vegetal à ideia de segurança. No entanto, algumas plantas possuem compostos capazes de interferir diretamente na ação de medicamentos importantes.

Quando o assunto é anticoncepcional hormonal, essa interação merece atenção especial. Isso porque determinados fitoterápicos podem acelerar o metabolismo dos hormônios responsáveis pela prevenção da gravidez, reduzindo sua concentração no organismo e comprometendo sua eficácia.

Entre os exemplos mais conhecidos está a Erva de São João, também chamada de Hipérico (Hypericum perforatum), uma planta utilizada em diversos países em forma de chá, cápsulas e extratos.

O anticoncepcional depende de níveis hormonais estáveis

Para funcionar corretamente, os anticoncepcionais precisam manter concentrações adequadas de hormônios na corrente sanguínea. Esses hormônios atuam impedindo a ovulação e criando condições que dificultam uma gestação.

No entanto, após serem absorvidos, eles passam por um complexo processo de metabolização no fígado.

É nesse momento que entram em cena as enzimas da família Citocromo P450, responsáveis por processar uma enorme variedade de substâncias presentes no organismo.

Uma das mais importantes é a CYP3A4, que participa diretamente do metabolismo de diversos hormônios contraceptivos.

O mecanismo que interfere na ação do anticoncepcional 

O grande problema da Erva de São João está na sua capacidade de provocar um fenômeno chamado indução enzimática.

Na prática, a planta estimula o organismo a produzir mais enzimas CYP3A4. Com isso, o fígado passa a metabolizar os hormônios contraceptivos de forma mais rápida do que o normal.

O resultado é uma redução da quantidade de hormônios disponíveis na circulação sanguínea.

Em situações assim, o anticoncepcional pode perder parte da sua eficácia, aumentando o risco de falhas contraceptivas.

Além disso, algumas mulheres podem apresentar sangramento de escape, alteração que pode servir como um sinal de que os níveis hormonais estão sofrendo interferência.

O que os pesquisadores descobriram sobre essa interação 

Uma revisão publicada em 26 de agosto de 2025 na revista European Psychiatry, liderada por R. A. Maldonado-Puebla, analisou as interações medicamentosas associadas à Erva de São João.

Os pesquisadores observaram que os compostos presentes na planta induzem significativamente a enzima CYP3A4, acelerando o metabolismo de diversos medicamentos, incluindo os anticoncepcionais hormonais. A revisão destacou que essa aceleração pode reduzir a concentração dos hormônios no organismo e comprometer a eficácia contraceptiva.

Os autores também chamaram atenção para o fato de que muitas pessoas utilizam produtos fitoterápicos sem informar seus profissionais de saúde, aumentando o risco de interações não identificadas.

O mito do “natural não faz mal”

Grande parte das interações medicamentosas envolvendo plantas ocorre porque os consumidores não enxergam esses produtos como medicamentos.

Entretanto, substâncias naturais também exercem efeitos farmacológicos importantes.

No caso da Erva de São João, o risco não está relacionado à toxicidade da planta, mas à sua capacidade de modificar a velocidade com que o organismo elimina determinados medicamentos.

Por isso, o uso simultâneo com anticoncepcionais exige cautela.

Como se proteger

Se você utiliza anticoncepcional hormonal, algumas medidas são importantes:

  • Informe seu médico sobre qualquer chá, suplemento ou fitoterápico utilizado regularmente.
  • Leia atentamente a bula dos medicamentos.
  • Evite iniciar produtos à base de Hipérico sem orientação profissional.
  • Em caso de dúvida, converse com um farmacêutico ou ginecologista.

A interação entre medicamentos e plantas medicinais mostra que nem sempre o que é natural é livre de consequências. No caso da Erva de São João, uma simples xícara de chá ou um suplemento aparentemente inofensivo pode alterar o metabolismo dos hormônios contraceptivos e comprometer a proteção esperada do tratamento.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn