Nova aranha usa uma catapulta de seda para lançar formigas direto na armadilha 

Esta aranha faz a própria formiga acionar uma catapulta que a lança direto para a armadilha. (Imagem: Professor Ajay Narendra et al.)
Esta aranha faz a própria formiga acionar uma catapulta que a lança direto para a armadilha. (Imagem: Professor Ajay Narendra et al.)

A natureza nunca deixa de surpreender quando o assunto é estratégias de sobrevivência. Em uma floresta tropical do norte da Austrália, pesquisadores descobriram uma pequena aranha que utiliza um dos mecanismos de caça mais impressionantes já registrados. Em vez de perseguir sua presa, ela constrói uma verdadeira catapulta de seda, esperando que a própria vítima acione o disparo. O resultado é uma armadilha extremamente precisa, capaz de lançar uma formiga diretamente para a teia da aranha em uma fração de segundo.

A descoberta foi publicada na revista Current Biology, em um estudo liderado por Ajay Narendra, em 2026, revelando um comportamento que pode representar um dos exemplos mais sofisticados de especialização alimentar entre as aranhas.

Uma armadilha feita sob medida para uma única presa

A espécie pertence ao gênero Propostira e ainda não recebeu um nome científico definitivo. Mesmo assim, já ficou conhecida como aranha balista, em referência às antigas máquinas de guerra romanas que lançavam projéteis utilizando energia elástica armazenada.

O aspecto mais curioso é que essa aranha parece caçar praticamente apenas uma espécie, a agressiva formiga verde arborícola (Oecophylla smaragdina).

Essa especialização é incomum, já que formigas representam presas bastante perigosas. Elas possuem mandíbulas fortes, comunicação química eficiente e podem convocar rapidamente dezenas ou centenas de companheiras para defender a colônia.

A presa aciona o próprio mecanismo de captura

Durante o dia, a aranha permanece escondida sob folhas próximas às trilhas utilizadas pelas formigas. Após o anoitecer, inicia a construção de sua armadilha.

Ela produz dezenas de fios de seda altamente tensionados, organizados em uma estrutura semelhante a um pequeno cone. Em seguida, recobre essa estrutura com fios extremamente finos e posiciona-se a uma distância segura.

Quando uma formiga encontra o cone, reage de forma agressiva e o morde. Esse simples contato rompe o ponto de ancoragem da armadilha.

Em seguida, acontece o inesperado.

A energia acumulada na seda é liberada quase instantaneamente, lançando a formiga mais de 30 centímetros para cima, diretamente contra a teia principal, onde fica completamente presa antes que consiga reagir.

Somente depois disso a aranha se aproxima para envolver a presa com seda.

Uma verdadeira obra de bioengenharia

O segredo desse mecanismo está nas propriedades mecânicas da seda produzida pela aranha.

Os pesquisadores verificaram que ela funciona como uma mola biológica, armazenando energia elástica durante a construção da armadilha e liberando toda essa energia em um único movimento extremamente rápido.

Segundo os dados do estudo, a aceleração experimentada pela formiga ultrapassa 1.300 metros por segundo ao quadrado, um desempenho impressionante para um sistema construído inteiramente por um pequeno artrópode.

Além disso, a armadilha consegue vencer a forte aderência das patas da formiga, que normalmente dificultaria sua captura.

Uma estratégia moldada pela evolução

Esse comportamento provavelmente surgiu como resposta ao enorme risco de atacar diretamente uma presa tão agressiva.

Ao manter distância durante toda a captura, a aranha reduz significativamente a chance de sofrer mordidas ou ataques coletivos das demais formigas da colônia.

Os pesquisadores também levantam a hipótese de que a armadilha possa liberar substâncias químicas capazes de estimular o comportamento agressivo das formigas, aumentando as chances de elas morderem exatamente o ponto que dispara o mecanismo. Essa possibilidade ainda será investigada em estudos futuros.

A pesquisa publicada por Ajay Narendra e colaboradores na revista Current Biology, em 2026, mostra que a evolução pode produzir soluções extraordinariamente sofisticadas. Muito além de uma simples teia, essa pequena aranha desenvolveu um sistema que combina engenharia, biomecânica, comportamento animal e propriedades únicas da seda, transformando uma presa perigosa em participante involuntária da própria captura.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes

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