Mau hálito no pet não é “coisa da idade”: o risco das bactérias da boca irem para o coração

Mau hálito persistente pode indicar problemas na saúde bucal do pet. (Imagem: Fala Ciência)

Aquele cheiro forte que sai da boca do cachorro pode parecer apenas uma característica de um animal mais velho. No entanto, mau hálito persistente não deve ser considerado uma consequência normal do envelhecimento.

Na maioria das vezes, a origem está na própria boca. Placa bacteriana, cálculo dentário, inflamação das gengivas e doença periodontal podem criar um ambiente favorável à proliferação de microrganismos. E quanto mais avançada a inflamação, maior a preocupação com possíveis efeitos além dos dentes e gengivas.

Isso não significa que todo cachorro com mau hálito desenvolverá uma doença cardíaca. Porém, a saúde oral está ligada ao restante do organismo, e uma boca cronicamente inflamada merece avaliação veterinária.

O cheiro desagradável pode esconder uma inflamação importante

Infográfico sobre saúde bucal canina e sinais de doença periodontal. (Imagem: Fala Ciência)

O mau hálito, também chamado de halitose, pode aparecer quando bactérias presentes na placa dentária degradam resíduos e produzem compostos com odor desagradável.

Com o tempo, a placa pode endurecer e formar cálculo. A inflamação então pode avançar para estruturas que sustentam os dentes, caracterizando a doença periodontal.

Alguns sinais merecem atenção:

  • mau hálito que persiste
  • gengivas avermelhadas ou que sangram
  • acúmulo visível de cálculo dentário
  • dificuldade para mastigar
  • preferência por alimentos mais macios
  • dentes frouxos ou perda dentária
  • desconforto ao tocar na região da boca

Por isso, mascarar o odor com produtos de higiene não resolve necessariamente a causa. O problema pode estar abaixo da linha da gengiva, onde a inflamação é mais difícil de perceber.

A boca do cão com doença periodontal tem outro perfil bacteriano

Um estudo publicado na Scientific Reports em 1º de abril de 2026, liderado por Jeongwoong Park, comparou o microbioma oral de cães saudáveis com o de animais diagnosticados com doença periodontal.

A pesquisa analisou amostras de placa de cinco cães clinicamente saudáveis e cinco cães com doença periodontal por meio do sequenciamento do gene 16S rRNA. Os pesquisadores encontraram diferenças importantes na composição e na organização das comunidades bacterianas entre os dois grupos, inclusive após considerar a idade dos animais.

Entre os achados, cães com doença periodontal apresentaram comunidades microbianas marcadamente diferentes, com maior presença relativa de grupos associados ao quadro periodontal. O estudo também identificou alterações nas relações entre os microrganismos, sugerindo uma desorganização do ecossistema bacteriano da boca.

É importante, entretanto, não extrapolar o resultado: essa pesquisa não provou que essas bactérias migraram para o coração. Ela mostra que a doença periodontal está acompanhada por mudanças relevantes no microbioma oral.

Como uma inflamação da boca pode preocupar outros órgãos

Gengivas inflamadas podem apresentar pequenos pontos de sangramento, especialmente quando a doença periodontal está avançada. Nessa situação, existe uma possibilidade biologicamente plausível de microrganismos orais alcançarem a circulação.

Em determinados contextos, bactérias presentes no sangue podem representar preocupação para órgãos distantes. O coração é um deles, especialmente quando existem condições que aumentam a vulnerabilidade às infecções.

Ainda assim, não é correto dizer que todo cão com doença periodontal terá bactérias instaladas no coração. A relação entre saúde oral e doenças sistêmicas em animais é complexa e continua sendo estudada.

O principal ponto para o tutor é mais simples: uma boca doente não deve ser ignorada.

Veja também:

Mau hálito não deve ser tratado como sinal de idade

Envelhecer pode aumentar a frequência de problemas dentários, mas isso não transforma a doença periodontal em algo normal ou inevitável.

A avaliação veterinária é especialmente importante quando o mau hálito vem acompanhado de sangramento gengival, dificuldade para comer, dor ou alterações no comportamento.

Além disso, a prevenção odontológica faz parte do cuidado geral com o pet. Manter a boca saudável ajuda a controlar a placa bacteriana e a inflamação, enquanto problemas já estabelecidos podem exigir tratamento profissional.

Em outras palavras, o mau hálito pode ser o primeiro sinal perceptível de um problema que começou muito antes de o tutor notar. Por isso, quando o cheiro da boca muda e permanece, vale investigar em vez de simplesmente atribuí-lo à idade.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes