James Webb revela atmosfera misteriosa em mundo onde até as rochas permanecem derretidas

James Webb revela atmosfera surpreendente em planeta de lava com temperaturas capazes de derreter rochas. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Imagine um planeta onde as rochas permanecem derretidas, a superfície atinge temperaturas extremas e um ano dura menos de um dia terrestre. Esse cenário existe em 55 Cancri e, uma das chamadas super Terras mais intrigantes já descobertas. Agora, novas observações do Telescópio Espacial James Webb (JWST) revelaram que esse mundo pode possuir uma atmosfera muito diferente do que os cientistas imaginavam, oferecendo pistas inéditas sobre a evolução de planetas rochosos fora do Sistema Solar.

Os resultados, liderados por Ignas Snellen e colaboradores, foram disponibilizados no arXiv em 10 de junho de 2026 e submetidos para publicação na revista Nature Astronomy. O estudo utiliza observações realizadas pelo JWST para investigar a composição atmosférica desse exoplaneta localizado a aproximadamente 41 anos luz da Terra.

Um planeta onde a lava domina a superfície

O 55 Cancri e possui cerca de 1,9 vezes o raio da Terra e aproximadamente oito massas terrestres. Sua principal característica é a extrema proximidade com sua estrela, semelhante ao Sol.

Essa órbita é tão curta que o planeta completa uma volta em apenas 0,7 dia, permanecendo praticamente sempre com o mesmo lado voltado para a estrela.

Como consequência, as temperaturas são tão elevadas que grande parte da superfície permanece coberta por um oceano de magma, transformando o planeta em um verdadeiro laboratório natural para estudar mundos rochosos extremos.

James Webb encontrou uma atmosfera inesperada

Os modelos anteriores sugeriam que a atmosfera de 55 Cancri e seria dominada principalmente por dióxido de carbono (CO₂) e monóxido de carbono (CO).

Entretanto, após analisar cinco eclipses do planeta utilizando os instrumentos do James Webb, os pesquisadores identificaram um cenário bastante diferente. Os dados indicam uma atmosfera composta por:

  • Grande quantidade de hidrogênio
  • Abundante monóxido de carbono
  • Baixa concentração de dióxido de carbono

Essa composição sugere que gases provenientes do interior do planeta podem estar abastecendo continuamente sua atmosfera.

Além disso, pequenas variações observadas entre diferentes medições indicam que o planeta pode apresentar mudanças atmosféricas relativamente rápidas.

Vulcões podem estar moldando esse mundo alienígena

Uma das hipóteses mais interessantes do estudo é que atividade vulcânica intensa esteja liberando gases constantemente para a atmosfera.

Os pesquisadores também sugerem que esse material possa formar nuvens temporárias, capazes de modificar parcialmente a temperatura da superfície antes de serem dissipadas pelo ambiente extremamente quente.

Como a atmosfera de um planeta rochoso reflete, em grande parte, os materiais liberados por seu interior, essas observações oferecem uma oportunidade rara de investigar a composição química interna de um mundo localizado fora do Sistema Solar.

Os resultados também indicam que o interior de 55 Cancri e apresenta um ambiente químico relativamente pobre em oxigênio, favorecendo a presença de hidrogênio nos gases liberados.

O que esse planeta pode ensinar sobre outros mundos?

Nos últimos anos, o número de exoplanetas de lava conhecidos aumentou rapidamente. Objetos como K2-141 b, TOI-561 b, CoRoT-7 b e L 98-59 d compartilham características semelhantes, como órbitas extremamente curtas e temperaturas capazes de fundir rochas.

Estudar esses planetas ajuda os cientistas a compreender como surgem e evoluem mundos rochosos submetidos a condições extremas.

O James Webb vem desempenhando papel fundamental nessa investigação, permitindo identificar moléculas atmosféricas com um nível de detalhe jamais alcançado anteriormente.

À medida que novas observações forem realizadas, 55 Cancri e poderá revelar ainda mais informações sobre a interação entre vulcanismo, atmosferas exóticas e a evolução de planetas rochosos. Essas descobertas ampliam significativamente nosso conhecimento sobre a enorme diversidade de mundos existentes na Via Láctea e mostram que muitos deles apresentam características muito além do que se imaginava há poucos anos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes