James Webb encontra jatos de gás gigantes em galáxias que deveriam estar mortas

James Webb observa o Universo distante em busca de galáxias antigas. (Imagem: NASA, ESA, CSA, Northrop Grumman)

Durante bilhões de anos, algumas galáxias parecem ter entrado em um estado de silêncio cósmico. Elas praticamente pararam de produzir novas estrelas, mas o Telescópio Espacial James Webb encontrou sinais de que essa história pode ser muito mais complexa.

Ao observar galáxias que já eram consideradas quiescentes quando o Universo tinha pouco mais de 1 bilhão de anos, os astrônomos identificaram enormes fluxos de gás sendo lançados para fora. O detalhe mais intrigante é que boa parte desse material pode não conseguir escapar definitivamente.

Um “sopro” que atravessa uma galáxia antiga

Webb revela fluxos de gás em galáxias antigas, interrompendo a formação estelar. (Imagem: Fala Ciência)

O nascimento de estrelas depende da disponibilidade de gás frio, que funciona como matéria-prima para formar novas gerações estelares. Quando uma galáxia perde esse combustível, sua produção de estrelas diminui drasticamente.

É justamente por isso que os fluxos observados pelo Webb chamam atenção.

A equipe analisou 23 galáxias massivas quiescentes, localizadas a distâncias correspondentes a um Universo extremamente jovem. Para identificar o gás neutro, os pesquisadores procuraram uma assinatura espectral do sódio neutro, conhecida como Na I D.

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O resultado foi expressivo:

  • 13 das 23 galáxias apresentaram excesso de absorção de Na I D;
  • 7 galáxias mostraram sinais de gás se deslocando para fora;
  • os fluxos tinham massa suficiente para superar, em muitos casos, a quantidade de gás convertida atualmente em novas estrelas.

Assim, mesmo galáxias consideradas inativas podem apresentar uma dinâmica intensa em seu interior.

O gás pode estar apenas fazendo uma viagem de ida e volta

A descoberta mais curiosa aparece quando os pesquisadores analisam a velocidade desses fluxos.

Embora o gás esteja sendo empurrado para fora das galáxias, a maior parte não parece atingir velocidade suficiente para escapar definitivamente da gravidade. Em vez disso, o material pode subir, perder velocidade e posteriormente retornar.

Esse processo é conhecido como reciclagem ou fonte galáctica.

Na prática, uma galáxia poderia expulsar seu próprio combustível e, milhões de anos depois, receber parte dele novamente. Dependendo das condições, esse retorno poderia permitir que a formação de estrelas fosse retomada.

Portanto, uma galáxia quiescente não necessariamente representa um sistema permanentemente encerrado.

A galáxia que levou o Webb ao extremo

Entre os objetos analisados, uma galáxia identificada como DD-236 apresentou o fluxo neutro mais extremo já registrado fora do Universo local.

O fenômeno também apareceu associado a sinais de um núcleo galáctico ativo, indicando que um buraco negro supermassivo pode estar relacionado ao processo. Ainda assim, a conexão não é simples.

Os pesquisadores encontraram sinais de atividade de buraco negro em apenas uma parte das galáxias analisadas. Além disso, algumas galáxias com atividade nuclear não apresentaram os mesmos fluxos.

Isso indica que diferentes mecanismos podem estar envolvidos, incluindo episódios antigos de atividade de buracos negros e interações entre galáxias.

Veja mais:

O que o estudo muda na história das galáxias

O trabalho liderado por Pengpei Zhu, publicado na revista científica Astronomy & Astrophysics em 14 de agosto de 2026, mostra que expulsar gás não significa necessariamente eliminar o combustível estelar para sempre.

Os resultados sugerem que algumas galáxias antigas podem passar por ciclos de expulsão, desaceleração e retorno do gás, em vez de simplesmente desligarem sua formação estelar de uma vez.

Por isso, observar apenas se uma galáxia está formando estrelas ou não pode esconder uma parte importante de sua evolução. Com o James Webb, os astrônomos agora conseguem investigar diretamente o movimento do gás neutro em épocas muito antigas do Universo.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes