Isso é o que acontece no seu estômago quando você masca chiclete em jejum 

Jejum e chiclete exigem atenção em alguns casos. (Foto: Pixelshot via Canva)

Mascar chiclete faz parte da rotina de milhões de pessoas. Alguns utilizam para refrescar o hálito, outros para controlar a fome ou aliviar a ansiedade. No entanto, quando esse hábito acontece com o estômago vazio, o organismo inicia uma série de respostas fisiológicas que muita gente desconhece.

Isso não significa que mascar chiclete em jejum seja necessariamente prejudicial. Para pessoas saudáveis, o hábito costuma ser bem tolerado. Porém, quem sofre com gastrite, refluxo gastroesofágico, dispepsia ou maior sensibilidade digestiva pode perceber sintomas como azia, desconforto abdominal ou sensação de irritação no estômago.

Seu sistema digestivo começa a trabalhar antes da comida chegar

A simples mastigação já envia sinais ao cérebro de que uma refeição está a caminho. Esse mecanismo faz parte da chamada fase cefálica da digestão, responsável por preparar o organismo para receber os alimentos.

Como consequência, ocorre aumento da produção de saliva, além da estimulação da secreção de ácido gástrico e de enzimas digestivas.

Quando existe alimento no estômago, essas secreções cumprem sua função normalmente. Já durante o jejum, o ácido produzido encontra pouca ou nenhuma comida para atuar. Embora isso não cause problemas na maioria das pessoas, indivíduos mais sensíveis podem apresentar desconfortos digestivos.

Nem todo organismo reage da mesma forma

A resposta ao chiclete varia conforme as características individuais.

Quem possui um sistema digestivo saudável geralmente não percebe alterações importantes. Por outro lado, pessoas com doenças gastrointestinais podem notar piora dos sintomas após permanecer muito tempo mascando chiclete sem se alimentar.

Outro ponto importante é a composição do produto. Muitos chicletes sem açúcar contêm polióis, como sorbitol e xilitol. Quando consumidos em grandes quantidades, esses adoçantes podem favorecer:

  • Distensão abdominal
  • Gases
  • Desconforto intestinal
  • Diarreia, principalmente em pessoas mais sensíveis

Por isso, o desconforto nem sempre está relacionado apenas à mastigação.

O que a literatura científica mostra até agora 

Um estudo observacional publicado no Journal of Clinical Anesthesia, em setembro de 2019, tendo Jose A. Valencia como autor principal, avaliou 55 voluntários saudáveis em jejum para investigar se mascar chiclete durante uma hora alterava o volume de líquido presente no estômago.

Os pesquisadores utilizaram ultrassonografia gástrica antes e após o período de mastigação e verificaram que o chiclete não aumentou significativamente o volume de líquido gástrico nos participantes saudáveis. Os resultados sugerem que, nesse grupo, o hábito não provocou alterações relevantes nesse aspecto da fisiologia digestiva.

No entanto, o estudo não avaliou sintomas como gastrite, refluxo, dor abdominal ou azia. Portanto, seus resultados não significam que todas as pessoas possam mascar chiclete em jejum sem qualquer desconforto. Quem apresenta doenças digestivas continua podendo perceber sintomas relacionados à estimulação do sistema digestivo.

Quando vale a pena evitar esse hábito

Se você costuma sentir azia, queimação, dor no estômago ou refluxo, pode ser interessante observar se esses sintomas aparecem após mascar chiclete em jejum.

Nesses casos, uma estratégia simples é deixar o chiclete para depois da primeira refeição do dia e manter uma alimentação equilibrada, além de boa hidratação.

No fim das contas, o chiclete não é um inimigo do estômago, mas conhecer a resposta do próprio organismo faz toda a diferença. Pequenos hábitos podem gerar efeitos distintos entre as pessoas, e respeitar esses sinais é uma das melhores formas de cuidar da saúde digestiva.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn