Remédio aprovado nos EUA pode abrir novo caminho contra raro câncer de fígado

Novo estudo amplia esperança contra câncer raro. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Durante anos, um dos maiores desafios da oncologia foi entender por que a imunoterapia falha em alguns tipos de câncer, mesmo quando apresenta excelentes resultados em outros pacientes. Agora, uma descoberta pode abrir uma nova possibilidade para pessoas diagnosticadas com carcinoma fibrolamelar, uma forma rara e agressiva de câncer de fígado que costuma atingir crianças e adultos jovens.

Pesquisadores identificaram um mecanismo utilizado pelo tumor para escapar das defesas do organismo e mostraram que o AMD3100 (plerixafor), um medicamento aprovado nos Estados Unidos pela FDA para outra indicação médica, pode ajudar o sistema imunológico a voltar a reconhecer e atacar as células cancerígenas. No Brasil, esse medicamento não é aprovado para tratar esse tipo de câncer, e sua utilização nessa situação ainda depende de estudos clínicos.

O tumor consegue esconder o câncer do sistema imunológico

O carcinoma fibrolamelar representa cerca de 2% dos casos de câncer de fígado, mas costuma ser diagnosticado apenas quando a doença já está avançada. Um dos motivos para a dificuldade no tratamento é que esse tumor modifica o ambiente ao seu redor.

Em vez de permitir que as células T, responsáveis por combater células anormais, cheguem ao tumor, o câncer cria sinais químicos que desviam essas células para regiões fibrosas, impedindo que alcancem as células cancerígenas.

Esse mecanismo, conhecido como exclusão de células T, ajuda a explicar por que muitos pacientes apresentam baixa resposta à imunoterapia.

Tecnologia permitiu enxergar o comportamento do tumor em detalhes

Para descobrir como isso acontece, os pesquisadores utilizaram uma técnica chamada transcriptômica de núcleo único, capaz de analisar a atividade genética de células individuais presentes no tumor.

A análise revelou que células estreladas alteradas do fígado produzem fibras e moléculas que funcionam como uma espécie de “desvio”, atraindo as células T para longe das células cancerígenas.

Na prática, o próprio tumor cria um ambiente que dificulta o trabalho do sistema imunológico.

Medicamento pode ajudar a imunoterapia a funcionar melhor

Os pesquisadores então testaram o AMD3100, medicamento já utilizado nos Estados Unidos para outra finalidade clínica.

Nos experimentos realizados com tecidos tumorais humanos, o fármaco conseguiu impedir esse desvio das células T, permitindo que elas alcançassem novamente o centro do tumor.

Quando associado aos inibidores de checkpoint imunológico, um dos principais tipos de imunoterapia utilizados atualmente, houve aumento da atividade das células de defesa e maior destruição das células cancerígenas.

Os resultados sugerem que essa combinação poderá se tornar uma estratégia promissora no futuro, embora ainda precise ser avaliada em ensaios clínicos com pacientes.

O que os resultados mostraram 

O estudo foi publicado na revista científica Gastroenterology, em 2026, com autoria principal de Jason A. Carter. Os pesquisadores demonstraram que o bloqueio da proteína CXCR4 pelo AMD3100 reduziu a exclusão de células T e aumentou a ação da imunoterapia em modelos experimentais de carcinoma fibrolamelar.

Como o medicamento já possui aprovação da FDA para outra indicação, os pesquisadores acreditam que isso poderá facilitar futuras pesquisas clínicas. No entanto, isso não significa que o tratamento já esteja disponível ou aprovado para pacientes com esse câncer, seja nos Estados Unidos ou no Brasil.

A descoberta pode beneficiar outros tipos de câncer

Embora a pesquisa tenha se concentrado no carcinoma fibrolamelar, os cientistas acreditam que mecanismos semelhantes possam ocorrer em tumores como câncer de pâncreas, próstata e cérebro, que também costumam responder pouco à imunoterapia.

Se essa estratégia se mostrar eficaz em estudos futuros, ela poderá contribuir para o desenvolvimento de novos tratamentos capazes de aumentar a resposta do sistema imunológico contra diferentes tipos de câncer.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn