Nas águas tropicais da Indonésia, uma ameaça invisível está destruindo ecossistemas marinhos. Explosões subaquáticas matam peixes e fragmentam recifes de coral, enquanto uma nova tecnologia baseada em inteligência artificial permite dimensionar esse problema.
O estudo analisou o Arquipélago de Spermonde, no sudoeste de Sulawesi, região localizada no Triângulo de Coral, uma das áreas de maior biodiversidade marinha do planeta.
Ali, a pesca com bombas utiliza explosivos para atordoar ou matar peixes rapidamente. Além da captura, porém, as detonações provocam danos físicos ao próprio recife, podendo destruir estruturas que levaram décadas para se desenvolver.
Uma explosão pode devastar um ecossistema inteiro
Os corais formam estruturas complexas que oferecem abrigo, alimento e áreas de reprodução para diversas espécies. Quando uma explosão ocorre próxima a eles, a onda de choque pode fragmentar o esqueleto calcário dos corais e matar organismos nas proximidades.
Com a repetição dos ataques, áreas inteiras podem se transformar em campos de fragmentos e sedimentos, dificultando a recuperação natural do ambiente.
Para medir a intensidade dessa atividade, os pesquisadores instalaram microfones subaquáticos com alcance estimado de aproximadamente 16 quilômetros.
A IA encontrou milhares de explosões
Durante 16 meses, foram reunidas cerca de 3.650 horas de gravações. A análise identificou aproximadamente 3.570 eventos compatíveis com pesca usando explosivos. Os dados indicam:
- Cerca de 8.500 incidentes por ano;
- Uma explosão a cada 62 minutos, em média;
- Aproximadamente 160 mil metros quadrados de degradação estimada.
Para analisar tamanha quantidade de áudio, os pesquisadores desenvolveram um modelo de aprendizado de máquina capaz de reconhecer automaticamente o padrão sonoro das explosões. A ferramenta conseguiu processar o equivalente a um mês de gravações em apenas quatro horas.
O estudo de Ben Williams e colaboradores foi publicado em 17 de agosto de 2026 na revista científica Remote Sensing in Ecology and Conservation.
O impacto também chega às comunidades
A destruição dos recifes ultrapassa os limites do ambiente marinho. Ecossistemas saudáveis sustentam populações de peixes importantes para alimentação e renda, além de contribuírem para a proteção das regiões costeiras contra a força das ondas.
Consequentemente, a degradação pode provocar prejuízos econômicos e reduzir o potencial turístico de áreas dependentes dos recifes.
O problema ainda se soma a outras ameaças, como aquecimento dos oceanos, branqueamento de corais e mudanças climáticas.
O som pode ajudar a proteger os recifes
O monitoramento acústico automatizado abre uma nova possibilidade para a conservação. Sensores podem permanecer no oceano durante longos períodos, enquanto a IA identifica explosões e ajuda a localizar pontos críticos de pesca ilegal.
Com essas informações, autoridades podem direcionar melhor patrulhas, fiscalização e ações de recuperação. Assim, uma tecnologia relativamente simples transforma sons escondidos no oceano em evidências capazes de orientar a proteção dos recifes.
